Elena Rossi
Lara não disse nada enquanto caminhava à minha frente pelo corredor.
Os saltos dela faziam um som ritmado no piso de madeira, como se cada passo anunciasse: você entrou, agora não sai mais. Eu vinha atrás, obediente, um pouco tonta. O encontro com Damian ainda vibrava dentro de mim como se eu tivesse sido colocada muito perto de um raio.
Medalhinha.
A palavra soou dentro da minha mente como insulto e lembrança ao mesmo tempo.
Ele deixou claro exatamente o que achava dela. Do meu presente, de mim.
Lara parou diante de uma porta branca, de madeira pesada, com detalhes discretos em metal escuro. Virou-se para mim. O rosto estava composto, mas havia algo nos olhos que não se encaixava com a neutralidade impecável.
— Este será o seu quarto. — anunciou, com a voz baixa. — Se precisar de alguma coisa, há um telefone na mesa de cabeceira. Ele liga direto para a central da casa.
Fez uma pausa. Uma pausa pequena, quase imperceptível, mas que pareceu conter tantas coisas não ditas.
— Elena… — chamou, num tom que eu ainda não tinha escutado dela. — Descanse um pouco, se puder.
“Se puder.”
Aquela escolha de palavras doeu mais do que qualquer ordem. Assenti com a cabeça, porque minha voz parecia ter ficado para trás, ainda presa na sala onde eu tinha deixado um pedaço da minha dignidade.
— Obrigada. — consegui dizer.
Ela apenas inclinou o queixo num gesto curto, quase um aceno de cumplicidade, e se afastou pelo corredor. Esperei até que o som dos passos sumisse antes de girar a maçaneta.
O quarto não era um quarto comum. Paredes em tom creme suave, uma cama enorme com cabeceira estofada, lençóis tão brancos que pareciam ameaçar qualquer impureza que se aproximasse. Uma poltrona próxima à janela, cortinas espessas, um tapete claro e macio que absorveu o som dos meus passos quando entrei.
Nada ali era meu, nem tinha a ver comigo. E, ainda assim, aquele espaço seria o lugar onde eu dormiria enquanto pertencesse a ele.
Fechei a porta devagar.
O clique foi baixo, mas eu o senti como se estivesse selando o meu destino.
Soltei um suspiro que eu nem sabia que estava segurando. O casaco de lã escorregou dos meus ombros e caiu no braço. Joguei-o sobre a poltrona com menos cuidado do que o tecido merecia, mas eu não estava em condição de cuidar de nada.
Aproximei-me da cama.
Os lençóis impecavelmente esticados, o travesseiro cheio na medida certa, uma manta dobrada ao pé da cama. Toquei com a ponta dos dedos. Era macio, confortável… mas alguma coisa em mim se recusava a deitar ali.
Minha mente ainda estava presa em outro lugar. Naquele escritório, na lareira, na mesa… naquele instante em que entreguei a única lembrança que eu tinha de minha mãe.
Lembrei da forma como ele a pegou. Como girou o metal entre os dedos com frieza. Como sorriu sem humor. Como deixou o objeto cair, fazendo o som seco que ainda ecoava dentro de mim.
“ Acha que pode me comprar com um presente barato?”


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