Elena Rossi
Fiquei alguns segundos ali, respirando devagar. Aos poucos, o choro foi diminuindo. As lágrimas ainda desciam, mas já não vinham em ondas. Eram filetes silenciosos, resignados.
Encostei a cabeça na borda da cama e olhei para o teto.
Foi então que, contra a minha vontade, a imagem dele voltou.
Damian.
Os olhos azuis cortantes, que mudavam de tom dependendo da luz. A linha dura do maxilar. A voz baixa, firme, controlada. O modo como disse “comigo” quando falou sobre ver a Sofia.
Comigo.
A palavra ardeu por dentro como fogo.
Eu deveria odiá-lo e odiava.
Odiava a forma como ele falava comigo como se eu fosse propriedade.
Odiava a forma como me reduzia a um investimento.
Odiava a frieza com que destruiu o meu gesto mais íntimo.
Mas… também havia outra coisa.
Algo que eu me recusava a admitir, mas que existia ali, no espaço entre a raiva e o medo.
O jeito como minha pele reagia quando ele chegava perto demais, como minha respiração acelerava quando ele dizia meu nome daquele jeito específico, como uma parte vergonhosa de mim lembrava do quase-beijo no iate, da aproximação lenta, do calor do corpo dele perto do meu.
Eu apertei os olhos com força, como se pudesse expulsar as lembranças.
— Não. — murmurei, para mim mesma. — Não. Você não vai fazer isso com você, Elena. Não com um homem como ele.
Um monstro. Sim, era isso que ele era.
Não o tipo de monstro que grita, quebra coisas, perde o controle. Esse era fácil de identificar. Damian era pior.
Era o tipo de monstro que fala baixo. Que pensa antes de ferir. Que escolhe palavras como quem escolhe lâminas. Que salva a sua irmã com uma mão e destrói a sua alma com a outra.
— Eu sou doente. — ri, sem humor. — Só pode ser.
Porque, mesmo depois de tudo o que ele fez, uma parte miserável de mim ainda lembrava da temperatura da mão dele segurando a minha quando me mandou descansar. Da forma como o polegar dele havia pressionado minha pele por um segundo a mais do que o necessário.
Não. Eu não podia me dar a esse luxo. Não tinha espaço para romance, ilusão, fantasia. Elas pertenciam a outra vida, a uma Elena que lia livros de amor barato no sofá da sala enquanto Sofia ria da escolha do mocinho.
Agora, o mocinho não existia mais.
Só havia um homem que comprou meu destino e um hospital caro demais para eu sequer sonhar em pagar.
Empurrei o corpo para cima, com esforço, e consegui ficar de pé. Ajoelhei no colchão e me arrastei até o centro da cama. Sentei sobre os calcanhares, alisei o vestido amarrotado e respirei fundo de novo.
— Você vai sobreviver, Elena. — falei para mim mesma, encarando o nada. — Mesmo que seja dentro da boca do lobo. Mesmo que, um dia, você tenha que aprender a desejar o lobo para continuar viva.
As palavras me assustaram mais depois de ditas.
Porque, pela primeira vez, eu admiti uma possibilidade que vinha tentando empurrar para longe desde o começo:
Seria possível sobreviver a alguém como Damian Cavallari sem, em algum nível doentio, aprender a desejá-lo?
Eu não sabia a resposta. Mas, naquela noite, deitada na cama dele, no quarto dele, na casa dele… Eu tive a sensação terrível de que o fogo já tinha encostado em mim.
E que, gostando ou não, eu já estava queimando.

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