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Leilão da Inocência: A Virgem Vendida Para o Bilionário romance Capítulo 37

Elena Rossi

A médica falava com as mãos.

Mesmo quando tentava manter a postura profissional, seus dedos denunciavam a empolgação contida, desenhando pequenas linhas pelo ar, como se as palavras não fossem suficientes para acompanhar o ritmo daquilo que ela precisava dizer. A expressão era séria, mas havia um brilho vivo nos seus olhos, um entusiasmo quase infantil, em contraste absoluto com a sobriedade branca do jaleco.

Damian, ao contrário, era pedra.

Ele estava alguns metros à frente de mim, no corredor reservado da UTI, ao lado da grande janela de vidro que dava visão para o quarto de Sofia. Ombros retos, queixo firme, mãos cruzadas à frente do corpo. O terno claro, perfeito, destoava daquela atmosfera de doença e remédios, como se ele fosse um intruso elegante em um mundo que não deveria conhecer.

Eu os observava à distância, do lado de dentro. Estava junto ao leito da minha irmã acariciando de leve a pele do seu rosto, que agora parecia um pouco menos pálida, um pouco menos frágil. A luz da manhã entrava pela janela, tocando a pele dela, ressaltando um tom de rosa muito discreto nas bochechas. Aos olhos de quem não a amava, talvez fosse irrelevante, mas para mim, parecia um milagre em construção.

Os cabelos vermelhos que antes caíam em ondas vivas pelos ombros, tão parecidos com os meus, agora estavam ausentes. O couro cabeludo delicado, protegido por um gorro hospitalar, era a lembrança brutal da violência da quimioterapia. Mesmo assim, ela parecia… mais viva.

Mais aqui.

Passei a ponta dos dedos devagar pela lateral do seu rosto, contornando a curva da mandíbula até chegar à região próxima à orelha. A pele estava um pouco mais quente do que na última vez. Ou talvez fosse só a minha necessidade desesperada de acreditar nisso.

Do outro lado do vidro, a médica falava, e Damian ouvia.

Ela apontou para algo no tablet, depois para um ponto específico num painel de exames que eu não conseguia ver dali. Os lábios dela se curvaram num sorriso que ela tentou controlar, provavelmente por respeito ao ambiente, ao paciente, a ele.

Ela cruzou os braços, descruzou, assentiu sozinha duas vezes enquanto explicava.

Damian permaneceu exatamente como estava. Nenhuma reação óbvia, nenhum sorriso, nenhuma mudança brusca. Apenas um leve movimento de queixo, um aceno contido, como se estivesse fechando um contrato vantajoso e não recebendo a notícia de que uma menina tinha mais chance de continuar viva.

Tentei ler o rosto dele, mas não consegui. Claro que não consegui.

Damian não era feito para ser lido. Era feito para ser temido, obedecido, decifrado aos poucos e, ainda assim, com margem de erro.

A médica ergueu os olhos em minha direção, por um instante. Como se quisesse compartilhar a notícia comigo, ainda que através de paredes e protocolos. O olhar dela suavizou quando viu minha mão sobre a de Sofia. Depois voltou para ele, retomando o tom profissional.

Eu não ouvia as palavras, mas conseguia imaginá-las.

Melhor do que o esperado.

Boa resposta ao tratamento.

Cirurgia limpa.

Estabilidade.

Chance.

Palavras que eu ansiava ouvir desde o fatídico dia que tudo começou. Palavras que para Damian podem não significar nada, mas para mim, eram tudo.

Inclinei-me um pouco mais para perto do rosto da minha irmã.

— Sofi… — sussurrei, encostando a testa na dela, bem de leve. — Eu tô aqui, tá? E… parece que as coisas estão melhorando.

Minha voz vacilou, mas continuei.

— A médica disse que, se tudo continuar assim, em dois dias você vai ser extubada. — meus dedos apertaram de leve os dela, mesmo sabendo que ela não podia responder. — Dois dias, Sofia. Só dois. E aí eu vou poder falar com você de verdade, brigar com você por ter me deixado maluca, e você vai revirar os olhos daquele jeito irritante que eu amo.

As lágrimas se acumularam, mas eu pisquei rápido, como se pudesse mantê-las sob controle na força da vontade.

— Vai dar certo, meu amor. — respirei, tentando acreditar na minha própria voz. — Vai dar certo. Eu prometo.

Não sei quanto tempo fiquei assim. Talvez minutos, ou horas que para mim passavam com segundos.

Quando recuei um pouco, notei o movimento pelo reflexo no vidro. Damian havia se despedido da médica. Ela apertou sua mão com respeito e um certo alívio. Ele fez um leve gesto de cabeça, agradecendo com uma formalidade quase fria. Em seguida, se virou em direção à porta. E eu soube que aquele momento havia acabado.

A maçaneta mexeu. A porta automatizada se abriu com aquele som suave demais para o peso que carregava. Ele entrou na UTI com passos firmes, o cheiro discreto do perfume dele atravessou o ambiente no mesmo instante.

Eu ainda estava ao lado da cama, com a mão sobre a de Sofia quando ele se aproximou até ficar a poucos passos de distância. Não olhou para mim de imediato, primeiro, olhou para ela.

Um olhar rápido, preciso, clínico. Sem piedade aparente e depois, finalmente, encontrou o meu.

— Vamos. — disse apenas.

A palavra cortou o ar, seca, definitiva fazendo meu peito apertar.

Capítulo 37 - Quando Até a Esperança Tem Dono 1

Capítulo 37 - Quando Até a Esperança Tem Dono 2

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