Elena Rossi
O som dos saltos de Lara ecoava no corredor como um metrônomo de controle. Cada passo dela era firme, enquanto os meus pareciam tropeçar no próprio medo. O ar dentro do iate tinha um cheiro difícil de descrever, uma mistura de couro, uísque e maresia.
Eu me sentia fora do meu corpo, como se apenas o som dos saltos me mantivesse em movimento. A cada curva do corredor, minha mente tentava fugir para outro lugar, qualquer lugar onde a respiração não doesse tanto.
Mas o medo tinha forma, e ele andava atrás de mim.
— Por aqui. — disse Lara, cortando meus pensamentos.
Ela abriu uma porta e fez sinal para que eu entrasse. O quarto era deslumbrante e isso, por algum motivo, me fez sentir pior.
As paredes eram revestidas de madeira clara, as janelas panorâmicas se abriam para um mar escuro e infinito. No centro, uma cama enorme, coberta por lençóis de linho branco que pareciam novos demais para serem tocados. Um vaso de lírios descansava na mesa de cabeceira, exalando um perfume doce e frio.
— Este será o seu quarto durante a viagem. — disse Lara, ajeitando a cortina com precisão. — O senhor Cavallari gosta que seus convidados tenham conforto.
“Convidados.”
A palavra soou quase como ironia.
Coloquei minha bolsa no chão, sem coragem de ir além.
O reflexo no espelho diante da cama mostrou uma versão de mim que eu mal reconhecia, os cabelos desgrenhados, o olhar vazio, os ombros tensos. A mulher que me olhava de volta parecia à beira de um abismo que não sabia onde terminava.
— Há um closet ali. — continuou Lara, abrindo uma porta lateral. — As roupas foram separadas de acordo com as instruções do senhor Cavallari.
“Instruções.”
Aquela palavra me causou um arrepio.
Segui-a em silêncio. O closet era maior do que todo o apartamento onde eu costumava viver. Vestidos pendiam de cabides de veludo, seda, cetim, renda. Tons neutros, elegantes. Branco, preto, vinho, dourado.
Um móvel inteiro exibia sapatos organizados por altura e cor. Saltos finos, sandálias delicadas, botas de couro. Tudo escolhido com cuidado quase cirúrgico, como se alguém tivesse estudado cada milímetro do meu corpo antes de decidir o que eu vestiria.
Então vi.
Na prateleira de vidro, dobradas com perfeição, as lingeries. Rendas finas, quase transparentes, brancas, pretas, e vermelhas. Pequenas demais, caras demais. O tipo de coisa que não parecia feito para ser vestida, mas exibida.
Senti o rosto queimar e o ar me faltou. Porque de repente me lembrei o que tinha acabado de vender e cedo ou tarde eu estaria nos braços do meu comprador. Será que ele seria gentil? Ou apenas um homem que ansiasse por um sexo intenso e selvagem? Nada disso importava, já era tarde demais.
Lara notou. Claro que notou. Virou-se lentamente, curvando os lábios em algo que não era exatamente um sorriso.
— São todas novas. O senhor Cavallari prefere qualidade.
— Eu... — tentei dizer algo, mas a voz falhou. — Eu não pedi isso.
— Ele também não perguntou. — respondeu com naturalidade. — Você faz parte do acordo, Elena. E o acordo inclui o que ele decidir fornecer.
A palavra pertencer me atravessou como uma lâmina.
Afastei o olhar, tentando respirar. Fingir que aquelas peças não existiam. Fingir que o toque do tecido fino nas minhas mãos não me deixava desconcertada. Mas não era só vergonha. Era a sensação de estar sendo moldada, preparada.
— Há perfumes na penteadeira. — continuou ela, impassível. — Todos franceses. Alguns escolhidos pessoalmente pelo senhor Cavallari.
Olhei para os frascos de vidro cristalino, alinhados sob a luz dourada. Chanel, Dior, Amouage. Toquei um deles e o cheiro de jasmim se espalhou. Era bonito... e ao mesmo tempo, cruel.
— Isso tudo é... demais. — murmurei. — Eu não sei o que ele espera.
Lara me lançou um olhar contido.
— O senhor Cavallari não é um homem que explica o que quer. Ele observa, mede, decide.
Por um instante, o ar prendeu na minha garganta. Lara percebendo a minha hesitação, se aproximou um pouco mais.
— E o que ele decidiu sobre mim? — perguntei, sem conseguir conter o tremor.
Lara hesitou por um segundo e, naquele instante, percebi algo nos olhos dela. Um lampejo quase humano.
— Que você o intriga. — respondeu, enfim. — E isso pode ser uma bênção... ou uma maldição, dependendo de como se comporta.
Voltei para o centro do quarto, incapaz de permanecer no closet sufocante. As janelas deixavam entrar o brilho prateado do luar sobre o mar. O som das ondas era constante, quase hipnótico.
Lara ajeitou o blazer.
— Ele pediu que descanse o resto do dia. — disse. — Mais tarde, o senhor Cavallari deseja vê-la novamente. Vista-se adequadamente.
Engoli o nó na garganta.

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