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Leilão da Inocência: A Virgem Vendida Para o Bilionário romance Capítulo 40

“Toda refém aprende a sobreviver. Algumas aprendem a jogar.”

Elena Rossi

O quarto parecia maior do que antes.

Não fisicamente, mas emocionalmente. Havia um eco estranho em tudo. Nos passos que eu dava sobre o tapete macio, no som quase imperceptível da cortina balançando com o vento, no modo como o ar parecia parado demais para um espaço de luxo. Era como se cada objeto tivesse assistido ao que eu ainda tentava organizar dentro de mim.

Sentei-me na beira da cama devagar.

O vestido ainda grudava no meu corpo como uma extensão da tensão que eu não tinha conseguido deixar no helicóptero, no hospital, no toque, na frase que não queria sair da minha cabeça.

“Você é minha, Elena.”

A voz dele não vinha como lembrança suave. Vinha como ferro quente.

Apoiei os cotovelos nos joelhos e levei as mãos ao rosto, apertando as pálpebras com força, como se pudesse apagar imagens à força.

Sofia deitada naquela cama imensa. Os fios conectados no seu corpo pequeno, o som dos monitores indicando que ela ainda lutava, o quase sorriso de Damian…

Meu estômago embrulhou.

Levantei-me num impulso e fui até a janela. A paisagem se abria em uma sucessão de jardins perfeitamente desenhados, tão simétricos que pareciam falsos. Tudo naquela casa era bonito demais para comportar tanta distorção por dentro.

A lembrança do toque no helicóptero atravessou meu corpo sem pedir licença.

O medo.

O solavanco.

A minha mão agarrada à perna dele.

A mão dele sobre a minha.

Não para afastar, mas para manter…

Meu peito subiu e desceu rápido.

— Você é louca… — murmurei para mim mesma. — Pelo amor de Deus, Elena. Homens como Damian não se importam.

Mas, debaixo dessa frase fraca, havia outra verdade que eu não queria encarar: eu não tinha me agarrado só por medo de cair.

Fechei os olhos.

E então, inevitavelmente, a memória voltou.

Não do toque, mas da noite anterior.

Eu caminhava pelo corredor da mansão com Lara ao meu lado, ainda tonta de cansaço e magoada pelo o que tinha acontecido no escritório, quando Damian falou, sem me olhar, como quem menciona algo irrelevante.

— Amanhã à noite haverá um evento. — disse. — Um jantar estratégico com pessoas importantes, esteja preparada.

Meu peito apertou com força e o ar faltou nos pulmões. Eu não disse nada. Apenas abaixei levemente a cabeça, num gesto quase imperceptível de concordância, como se, mesmo sem aceitar, meu corpo já soubesse a resposta.

A memória se dissolveu tão rápido quanto veio.

Abri os olhos sentindo o coração acelerado.

Evento, jantar, noite…

Olhei para o relógio ao lado da mesa de cabeceira da minha cama e já eram quase dezoito horas. Quando ouvi o som discreto de batidas na porta.

— Senhorita?

A voz era baixa, doce. Reconheci no mesmo instante.

Teresa.

— Entre. — respondi.

Ela entrou com passos cuidadosos, carregando uma caixa retangular nas mãos, envolta em papel bege refinado, com um laço de cetim preto no centro. O contraste era tão calculado que doía.

— Isso chegou para a senhora. — disse, depositando a caixa sobre a poltrona próxima à janela. — Não veio pelos canais habituais da casa.

Um abismo elegante de pele exposta, feito para ser visto quando ninguém esperava.

Minha respiração falhou por meio segundo. Aquele não era um vestido qualquer, era um vestido que havia sido escolhido para impressionar. Pude ver que dentro da caixa, havia um cartão branco, sem nome ou logo. Apenas letras cursivas perfeitamente desenhadas:

“Nos vemos à noite. Use-o, meu irmão irá gostar.”

Minhas mãos tremeram.

Fechei os olhos por um instante, sentindo o peso daquilo descer pelo meu estômago como uma bebida forte demais. Vesti o vestido apenas no pensamento e imaginei o olhar de Damian descendo pelas minhas costas nuas, e contra toda lógica, sorri.

Um sorriso mínimo, involuntário, perigoso.

Porque eu havia entendido que Beatrice queria que eu declarasse guerra. E o pior de tudo é que eu não sabia mais se eu era refém ou jogadora.

Minhas mãos ainda seguravam o cartão quando percebi que o sorriso não tinha ido embora e aquilo me assustou. Porque não era um sorriso de triunfo, era um sorriso de reconhecimento.

Fechei os olhos por um instante, sentindo o peso daquilo descer pelo meu estômago como uma bebida forte demais. A imagem veio sem esforço: o salão iluminado, o murmúrio controlado das conversas importantes, o olhar de Damian se detendo em mim por meio segundo a mais do que o permitido. Não de surpresa, mas de posse.

Meu peito apertou.

Não pelo que ele poderia fazer, mas pelo que eu poderia permitir.

Soltei o cartão sobre a cama e toquei o tecido do vestido mais uma vez. A renda parecia inofensiva sob os meus dedos, delicada demais para carregar o tipo de escolha que estava sendo colocada sobre mim.

Respirei fundo.

Se eu usasse aquele vestido, não seria para agradar Damian, nem para provocar Beatrice. Seria para testar até onde eu estava disposta a ir sem perder algo que talvez eu já tivesse começado a abandonar.

O relógio marcava o tempo com indiferença. A noite se aproximava como uma sentença que eu mesma havia assinado.

E naquele instante, sozinha naquele quarto grande demais, compreendi a parte que ninguém avisa quando ensina uma refém a jogar:

Não é o jogo que muda você.

É o momento em que você entende que poderia sair e escolhe ficar.

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