“Toda guerra começa no instante em que alguém decide parar de se defender.”
Elena Rossi
O quarto não mudou, mas eu mudei dentro dele.
O silêncio era outro. Não mais o silêncio do medo, da espera, da submissão involuntária. Era o silêncio tenso de quem sabe que algo está prestes a acontecer e não tem mais a ilusão de escapar.
A caixa ainda estava aberta sobre a poltrona. O vestido preto dobrado com precisão cirúrgica parecia me observar, ou talvez fosse eu quem não conseguisse parar de observá-lo.
Afastei-me alguns passos, indo até a janela, como se pudesse fugir da tentação apenas mudando de ângulo. Lá fora, o céu já começava a escurecer num azul profundo, indicando que em breve eu deveria estar preparada.
No vidro, meu reflexo era o de uma mulher suspensa entre duas versões de si mesma.
A que tremia e a que estava prestes a entrar no jogo.
Fechei os olhos e por um momento a imagem de Sofia surgiu em minha mente. O quarto branco, a cama grande demais, o rosto corado, os lírios, o som dos aparelhos, ela ainda adormecida… Tudo isso veio junto com a promessa de que daqui a dois dias, ela poderia acordar.
— Deus… o que eu mais queria nesse mundo, era poder ver a minha irmãzinha saudável novamente. — sussurrei como uma prece.
Tudo se misturava dentro de mim como uma tempestade sem nome.
Passei as mãos pelo rosto devagar, sentindo a pele quente demais para o quarto frio. Meu corpo ainda não tinha esquecido o helicóptero, a instabilidade, o medo, o toque. Agarrei a perna do vestido que ainda vestia e o puxei para cima apenas o suficiente para lembrar que meu corpo ainda me pertencia.
Pelo menos ali. Pelo menos por enquanto.
Voltei até a poltrona. Toquei o tecido preto com a ponta dos dedos e pude sentir a renda fria, mas ela parecia que carregava algo vivo.
Desdobrei o vestido por inteiro, lentamente, como se cada centímetro fosse uma revelação. As mangas longas prometiam recato. O decote discreto escondia o que não precisava ser exibido, mas as costas eram um convite, ou uma armadilha. Talvez os dois.
A imagem de Damian me olhando naquele vestido acendeu algo que eu não queria admitir. Eu queria que ele me enxergasse, não como um objeto que ele havia comprado, mas como mulher.
Fechei os olhos com força.
— Meu Deus isso é loucura… — murmurei.
Mas loucura já tinha sido subir naquele palco, aceitar aquele contrato, entrar no mundo sombrio de Damian Cavalari.
Talvez o único gesto de sanidade que restava, fosse escolher, ao menos uma vez, como eu seria vista.
Abri o closet e todas as roupas que estavam ali dentro, não eram minhas. Eram versões de mim que outras pessoas imaginaram. Cores neutras, tecidos caros, cortes impecáveis….
Máscaras que deviam esconder quem eu era de verdade. Mais ali, diante daquele vestido, eu tinha a oportunidade de ser pelo menos uma única vez… eu mesma. Até o momento em que ele decidisse o contrário.
Peguei uma toalha limpa e fui para o banheiro.
A água demorou dois segundos para esquentar.
Dois longos segundos.
Quando o calor finalmente desceu, eu fechei os olhos sob o jato e deixei que ele levasse um pouco do que pesava. A água escorria pelos ombros, pelas costas, pelos braços, levando junto o cheiro do hospital, do metal, do medo. Mas não levava ele, nunca levava.
A imagem de Damian permanecia no fundo da minha mente como um vulto que não precisava de luz para existir. Inclinei levemente a cabeça para trás, deixando a água bater no rosto. Meu corpo reagia de forma traidora às lembranças, ao toque dele na minha mão. Minha mente me pregava peças, imaginando aquela mão tocando o meu corpo…
— Por Deus Elena, você não pode se permitir. Precisa ser forte, por você, por Sofia. — disse em voz alta, tentando me convencer que conseguiria.
Homens como Damian Cavalari não são homens que nasceram para amar. Eles não tem coração, são frios, insensíveis, cruéis. E você já teve provas suficientes disso.
Um arrepio desceu pela minha espinha ao lembrar do perfume que eu senti quando me tocou. Fechei os dedos contra a própria palma, tentando chamar a mim mesma de volta.
— Controle… — sussurrei.


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