“Há homens que protegem para salvar. Outros protegem para não perder.”
Damian Cavallari
Eu vi de longe.
Vi o exato momento em que o homem se aproximou de Elena. A maneira que ele se inclinou demais. O sorriso que não era social e o modo que aquela proximidade fez Elena ficar desconfortável.
O corpo dela denunciou antes do rosto.
Os dedos enrijeceram contra a haste da taça. Os ombros perderam a leveza, a respiração mudou de ritmo. Aquela reação eu reconheço com precisão cirúrgica.
São reações que indicam ameaça.
Os japoneses falam sobre números, projeções, parcerias. Mas o som chegava até mim como um ruído inútil. Meu foco estava a alguns metros de distância.
A lâmina já estava no ar, e eu apenas ainda não tinha decidido onde cravá-la. Alessandro desviou os olhos e percebeu que eu estava completamente ausente. Apenas o meu melhor amigo era capaz de perceber os mínimos traços de mudança que surgiam em mim quando algo me deixava furioso.
Percebi que o homem inclinou-se mais e disse algo que fez Elena perder a pouca cor que ela ainda tinha. Percebi o sorriso dele se alargar e consegui apenas ouvir “cinco milhões” e pude imaginar sobre o que ele falava com ela.
Meu maxilar travou. O copo de uísque não quebrou na minha mão por um milagre estatístico.
— Continue. — disse um dos japoneses.
E eu sabia que deveria continuar falando por mais que meu corpo gritasse que eu deveria ir até lá e deixar bem claro aquele homem que aquela mulher estava comigo e me pertencia. Mas, continuei falando. Enquanto eu assinava mais um acordo bilionário com o movimento automático da caneta, aquele maldito homem tinha acabado de assinar a sua propria sentença.
Deixei o grupo sem explicação. Não precisava pedir licença, homens como eu nunca pedem. Caminhei até onde eles estavam e o salão se abriu diante de mim como o mar diante de um navio prestes a entrar numa guerra.
Ninguém ousou me deter. Aproximei-me sem pressa, porque uma coisa que aprendi com o tempo, era que a raiva nunca me apressa, ela me torna preciso, mortalmente preciso.
Elena ainda estava paralisada quando cheguei atrás dela. Eu não toquei seu braço, não toquei sua cintura, não toquei sua pele. Apenas ocupei o espaço colocando o meu corpo entre o dela e o dele.
O homem percebeu no segundo seguinte, porque o ar mudou.
— Algum problema? — ele perguntou, com o mesmo sorriso que começou a morrer nos lábios quando me reconheceu. — Da-Damian, que surpresa.
Olhei para ele com a calma absoluta dos predadores antigos.
— Você está ocupando um espaço que não lhe pertence.
A frase foi dita num tom baixo, discreto, educado. Mas havia algo nela que não admitia réplica.
Ele riu sem graça.
— Estamos apenas conversando. Não vejo…
Inclinei levemente a cabeça.
— Não estão.
Ele se calou no mesmo instante quando eu o interrompi.
Elena continuava em silêncio ao meu lado. Eu podia sentir o calor do corpo dela contra o meu, a ansiedade. Podia ouvir os batimentos acelerados do seu coração. E isso me enfurecia ainda mais.
— Está tudo bem, Cavallari— o homem tentou suavizar. — Estava apenas elogiando a sua “aquisição” e dizendo que depois que ela “prestar” os serviços para o senhor, poderíamos negociar valores, sei que não posso pagar o mesmo que você, mas como ela já terá perdido sua exclusividade, o valor de mercado naturalmente cai.

VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Leilão da Inocência: A Virgem Vendida Para o Bilionário