Elena Rossi
O carro parecia um caixão em movimento.
Não pela forma. Nem pelo luxo. Mas pelo silêncio.
Por fora, luzes, vidro, asfalto. Florença passando em manchas elegantes, douradas, vivas, um mundo inteiro vestido para parecer perfeito. Turismo, riqueza, história, arte, movimento. Tudo existia. Tudo respirava.
Por dentro, não.
Por dentro, havia apenas o silêncio. E não era o silêncio que descansava, era aquele silêncio que aperta, que comprime por dentro, o que empurra a respiração contra o próprio peito até doer.
Eu estava sentada ao lado dele. Não próxima, não distante. Exatamente na medida em que a ausência de palavras se tornava uma presença insuportável.
Minhas mãos repousavam sobre o vestido com uma rigidez que não era natural. Os dedos ainda estavam doloridos por terem apertado a haste da taça com força demais minutos antes, como se o vidro pudesse segurar algo do que eu sentia. O gosto do champanhe ainda permanecia na boca, adocicado demais, contrastando com algo amargo que não vinha de bebida nenhuma.
Raiva, humilhação. Essas duas palavras se misturavam na minha língua como veneno lento. E, por cima delas, a frase dele martelava.
“Não confunda isso com gentileza. É apenas a forma como organizo o que é meu.”
Meu estômago se contraía sempre que a lembrança reaparecia. Era como se aquela sentença tivesse sido gravada por dentro da minha pele, não nos ouvidos. Como se meu próprio corpo tivesse sido o lugar onde ele tinha escolhido deixar sua assinatura.
Olhei de relance na direção de Damian.
Ele dirigia como se o caminho fosse uma extensão do próprio corpo. Como se cada curva da estrada respondesse à tensão exata da mão dele no volante. Os dedos firmes, o antebraço rígido, o queixo tenso, marcado por uma linha de controle que não se desfazia nem quando não havia platéia.
O perfil dele era recortado pela luz difusa que entrava pela janela lateral. A iluminação desenhava ossos, sombras, planos. Ele parecia uma estátua antiga, algo esculpido para ser admirado à distância e temido de perto.
Ele não me olhava. Não dizia uma só palavra. Muito menos tentava apagar, desfazer, suavizar ou fingir que não tinha dito exatamente o que disse.
E isso doía mais do que qualquer discussão.
Boba.
A voz na minha própria cabeça soava cruel, impaciente comigo.
Por acaso você acredita que Damian Cavalari se importa com o que você sente? Não seja estúpida Elena.
A resposta vinha sempre pronta demais.
O carro cortava a noite em velocidade constante, e por algum motivo aquele silêncio doía mais do que qualquer crítica direta. Era um silêncio que não pedia explicações. Não oferecia saídas, apenas existia, absoluto, como uma sentença em movimento.
A festa, com seus lustres e risos, parecia mais distante do que realmente estava. Eu ainda conseguia ouvir, num canto da memória, o som das conversas, o tilintar das taças, os acordes discretos do piano. E, atravessando tudo aquilo, a voz daquele homem do leilão:
“Quando o Cavallari terminar com você… podemos negociar.”
Meu estômago revirou de novo, de forma física, incontestável. Uma náusea quente subiu pela garganta, e precisei controlar a respiração para não trair ainda mais minha fragilidade. Aquela frase ainda me sujava por dentro. Por mais que eu tivesse consciência que tudo o que estava acontecendo foi por minhas escolhas, ainda doía.
E, ao mesmo tempo, como se minha mente fosse cruel comigo, a lembrança de Damian se aproximando surgiu clara demais.
O jeito como ele ocupou o espaço entre mim e aquele homem.
A forma como o olhar dele esvaziou qualquer traço de arrogância do outro em segundos.
O modo como o ambiente inteiro pareceu recuar quando ele chegou.
Era como se eu estivesse o tempo todo presa entre duas versões do mesmo homem.
O algoz e o escudo.
Essa contradição me rasgava por dentro de um jeito que me confundia. E isso tudo se embaralhava dentro de mim.
Confusão, raiva, vergonha e uma ponta de algo perigosamente parecido com admiração.
O carro diminuiu ao se aproximar dos portões. A mansão surgiu à frente, imponente, iluminada como se jamais dormisse. Como se estivesse sempre em cena. Sempre pronta para receber olhos, histórias, negociações, segredos.
Quando ele finalmente soltou minha mão, foi como se algo tivesse sido desmontado dentro de mim. A ausência do contato ardeu por um segundo breve, desconfortável demais para admitir.
Eu inspirei fundo, tentando reorganizar o próprio corpo, mas já era tarde.
O coração ainda batia rápido demais.
A respiração ainda saía curta demais.
E a certeza mais perigosa de todas se instalava em silêncio:
Mesmo machucada, mesmo magoada, mesmo tentando odiá-lo, o toque de Damian Cavalari tinha poder sobre mim.
Caminhei em direção à entrada principal sem olhar para trás.
Meus passos ecoavam suaves no piso de pedra, regulares, controlados. O som discreto dos saltos contrastava com o caos dentro de mim. O vestido roçava nas minhas pernas, a cada movimento a renda fria encostava na pele como um lembrete do motivo pelo qual eu havia aceitado usá-lo.
Quis que Damian me visse não como um objeto que ele comprou, mas como uma mulher. Uma mulher que sente, que deseja.
Diminuí o passo ao me aproximar da escada.
Cada degrau parecia mais alto do que antes. Não fisicamente, mas emocionalmente. Como se subir fosse, de alguma maneira, assumir que tudo aquilo tinha acontecido. Que aquelas palavras existiam. Que aquele homem tinha exatamente o poder que acreditava ter.
Eu poderia subir sem dizer nada.
Poderia fingir que aquela noite acabava ali.
Poderia simplesmente atravessar o corredor, entrar no meu quarto provisório, fechar a porta, tirar aquele vestido, desmontar em silêncio.
Chorar sem que ninguém visse, sem ter que explicar, sem precisar ser forte por mais ninguém além de mim.
Mas de repente, algo me fez parar…

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