Senti uma presença atrás de mim. Não precisei virar para saber quem era.
O mesmo perfume discreto. A mesma energia contida, pesada, que mudava a temperatura do espaço.
Virei o rosto apenas pela metade.
— B… boa noite. — sussurrei, com a voz mais baixa do que eu gostaria.
Não esperei resposta. Dei mais dois passos em direção ao corredor que levava ao meu quarto foi quando senti a mão dele fechando em torno do meu braço, fazendo o meu corpo perder o equilíbrio no mesmo instante em que ele me puxou de volta.
A parede surgiu atrás de mim antes que eu processasse o caminho. As costas bateram de leve no revestimento liso, o impacto foi mais emocional do que físico.
— Damian… — comecei, num reflexo de defesa.
Mas não consegui terminar, porque, antes que qualquer palavra encontrasse forma completa, a boca dele encontrou a minha.
Durante um segundo inteiro, eu congelei.
Os lábios dele tomaram os meus com urgência, como se algo contido por tempo demais tivesse, enfim, se libertado. Não foi um beijo delicado. Foi quente, firme, invasivo, como se ele medisse, na minha própria reação, até onde eu suportaria. Um impulso que carregava posse demais para ser apenas desejo.
O coração parou, a mente tentou entender e o corpo me traiu primeiro. Como se, em algum lugar abaixo de todas as mágoas, do medo, do contrato, algo já soubesse o que fazer.
Minha mão, que até então estava solta ao lado do corpo, subiu instintivamente, procurando apoio em algum lugar entre o peito e o ombro dele. Os dedos tocaram o tecido do terno, sentindo os músculos fortes e o seu corpo quente.
Ele aprofundou o beijo.
Os lábios se moveram com uma precisão quase cruel, exigindo resposta e ao mesmo tempo oferecendo um tipo de entrega que eu nunca tinha conhecido. Não havia hesitação, nem dúvida, apenas certeza. Uma certeza que queimava.
Senti o gosto dele.
Algo entre uísque, noite e perigo.
Sua mão subiu do meu braço para a lateral do meu rosto, seus dedos envolveram a minha mandíbula, mantendo meu queixo na posição exata que ele queria.
Meu corpo se acendeu por inteiro.
O coração, antes em frangalhos, começou a bater tão forte que eu quase o ouvi. O ar ficou curto, dividido entre precisar respirar e não querer quebrar aquele contato. Meus lábios, inicialmente imóveis, começaram a responder, abrindo-se aos poucos sob a pressão dos dele.
Foi instintivo, inevitável.
Eu correspondi.
Uma corrente quente desceu pelo peito, não era só desejo, nem raiva, era alívio por finalmente ter algo que não fosse só dor.
A mão dele no meu rosto apertou de leve, e por um breve momento, naquela linha fina entre uma respiração e outra, eu esqueci.
Da UTI, do leilão, do contrato, do homem no salão me tratando como um objeto. Só existia o beijo.
Ele inclinou ligeiramente a cabeça, mudando o ângulo, e senti os lábios dele se encaixarem ainda mais fundo nos meus. Um arrepio percorreu minha coluna, desceu pelas costas expostas pelo vestido, e chegou até o meu ventre.
Minha outra mão buscou apoio no peito dele, agarrando ainda mais o tecido do paleto, segurando para não cair como se de alguma forma ele fosse meu porto seguro.
Um som baixo escapou da minha garganta, um suspiro involuntário, e foi abafado no mesmo instante pelo beijo dele. O movimento da boca se tornou mais intenso, como se aquela reação fosse uma permissão silenciosa.
Meu coração ainda batia tão alto que era quase um ruído no silêncio.
Levei a mão aos lábios, eles estavam quentes, sensíveis, diferentes.
Mas algo dentro de mim doeu mais do que ver ele se afastando.
Damian naquela noite, não tinha apenas me beijado. Ele tinha provado, na prática, a pior verdade de todas:
Eu podia odiá-lo.
Podia temê-lo.
Podia me magoar com ele.
Mas enquanto meus lábios ainda queimavam e meu coração insistia em bater fora do ritmo, uma verdade incômoda se impunha, silenciosa e impossível de negar:
Eu não deveria ter gostado tanto do beijo dele. Meu corpo não poderia reagir a ele todas as vezes que ele me tocasse. E tudo isso me deixava apavorada.
Porque acreditar em Damian Cavallari não significava ser escolhida. Significava escolher cair, mesmo sabendo que o chão podia não existir.
Entre tudo o que ele já tinha comprado eu ainda era a única coisa que ele não controlava.
Mas, naquela noite, compreendi com uma clareza quase cruel:
Ele já tinha tocado exatamente onde eu era mais vulnerável, no meu coração.

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