Damian Cavallari
Saí da casa como quem deixa para trás um incêndio que ainda arde por dentro.
A porta se fechou às minhas costas com um som limpo demais para o caos que continuava reverberando no meu peito. Atravessei o hall, a escada, a porta principal, tudo em linha reta, sem olhar para os lados, sem permitir que ninguém me interpretasse. Eu não estava fugindo de ninguém ali dentro, estava fugindo de mim.
O ar frio da noite bateu no meu rosto quando alcancei a rua. Abri a porta do carro com mais força do que deveria e entrei. O banco de couro recebeu meu peso, mas não aliviou a tensão que se acumulava nos ombros, na mandíbula, nas mãos.
Fechei a porta, girei a chave. O motor respondeu de imediato, grave, obediente e arranquei.
As luzes da cidade passaram em borrões contínuos pelo para-brisa. Faróis, placas, fachadas, semáforos. Tudo estava ali, mas nada existia de verdade. O único quadro nítido na minha mente era outro.
A parede, o corpo dela contra a parede, o instante em que meus lábios tocaram os dela.
Fechei os dedos no volante com mais força.
O beijo tinha sido um erro.
Eu havia ultrapassado uma linha que eu mesmo desenhei ao longo da vida: desejo podia existir, desde que não criasse fissura. Desde que não confundisse comando com impulso.
E por alguns segundos… confundiu.
O corpo dela ainda estava impresso na minha memória como se fosse uma marca térmica. O jeito como ela endureceu no primeiro toque. O segundo exato em que deixou de resistir. A forma como o tremor percorreu o corpo dela quando eu a prendi contra a parede.
E o som.
Aquele som mínimo, quase involuntário, que escapou da garganta dela e acendeu algo que eu preferia manter enterrado.
Eu desejei ter continuado.
De aprofundar o beijo até não restar escolha entre ficar e ceder.
De descer a mão pelas costas dela sem pedir permissão a nada além do próprio desejo.
De sentir o corpo dela responder por completo.
De possuir.
Pisei no acelerador como se pudesse deixar aquela vontade dissolvida no asfalto, mas não desaparecia. Cada metro percorrido apenas multiplicava a imagem. O gosto que permanecia na minha boca. O calor do corpo dela, a forma como ela havia se entregado.
E isso me tirava o controle.
Porque eu sabia que Elena era como Valentina, e assim como ela, iria me destruir outra vez. Mas porque eu não consigo me afastar dela? Minha mente me traz a lembrança do que ela disse na festa.
“Eu fiz isso por amor. Algo que eu tenho certeza que um homem como você jamais sentiu por ninguém.”
Será que ela estava certa? Será que até hoje eu não tenha amado?
Reduzi a velocidade quando reconheci a rua.
O clube noturno surgia à frente com suas luzes discretas demais para parecer inocente. Um daqueles lugares que não estampam nada, mas escondem tudo. Estacionei do outro lado, na sombra de uma árvore, e desliguei o motor.
O silêncio voltou a me cercar, sem demora, peguei meu celular e disquei um número que só usava para resolver coisas importantes.
— Fez o que eu pedi? — perguntei.
A resposta veio sem emoção:
Ele tentou dizer algo, mas não conseguiu.
Aproximei-me um pouco mais, para que a frase seguinte ficasse gravada onde realmente precisava ficar.
— Elena não está à venda. — pausei um segundo. — E você nunca mais ouse se aproximar dela.
Ele apenas respirava com dificuldade.
Endireitei-me e voltei para o carro.
Enquanto dirigia de volta pela mesma noite que parecia já não ser a mesma, algo insistia em não se calar dentro de mim. Não era culpa, nem arrependimento. Tampouco satisfação.
Era outra coisa mais perigosa.
Porque, enquanto as luzes se refletiam no vidro do pára-brisa, uma única verdade começava a se impor, fria e direta demais para ser ignorada:
Eu podia punir homens.
Podia quebrar negociações.
Podia enterrar insolências.
Podia mover peças.
Mas o beijo de Elena não obedecia às minhas regras.
E esse era o tipo de desordem que eu não perdoava com facilidade. Muito menos em mim.

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