Elena Rossi
Entrei no quarto sem acender a luz.
Fechei a porta devagar demais, como se qualquer ruído mais alto pudesse me denunciar para mim mesma. Como se o silêncio fosse a última coisa que eu ainda pudesse controlar. Minhas costas escorregaram pela madeira até eu me sentar no chão, com os joelhos dobrados contra o peito, o vestido ainda intacto… e os lábios ainda queimando.
O beijo não tinha ido embora.
Ele permanecia ali, impresso na pele, na memória, na respiração que ainda não encontrava o ritmo certo. Era como se o meu corpo tivesse ficado preso naquele segundo exato contra a parede, no instante em que tudo se desorganizou dentro de mim. Levei a mão à boca como fiz no corredor, mas agora não havia ninguém para me ver.
Mentir para os outros era mais fácil. Mentir para o meu corpo, não.
Fechei os olhos e tudo voltou.
A parede fria nas minhas costas. O cheiro dele me cercando. A pressão da mão no meu rosto. A forma como meu corpo, traidor, respondeu antes da minha razão.
Eu nunca tinha sido beijada assim. Nunca tinha sido beijada de verdade.
E talvez por isso tudo tivesse sido intenso demais, rápido demais, profundo demais. Como se algo que sempre esteve adormecido tivesse sido acordado à força e agora não soubesse mais como voltar a dormir.
Uma lágrima escorreu sem aviso.
Não de tristeza, mas de raiva.
Raiva de mim.
Raiva dele.
Raiva do meu corpo por ter desejado aquilo que minha alma ainda não entendia.
Eu precisava odiá-lo. Precisava mantê-lo no lugar do homem perigoso, cruel, controlador. O homem que comprava pessoas, destinos, silêncios. O homem que me fazia sentir pequena e, ao mesmo tempo, estranhamente viva.


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