Elena Rossi
Acordei antes que o sol tivesse coragem de se mostrar por inteiro.
A luminosidade ainda era tímida, um cinza suave filtrando-se pelas cortinas pesadas do quarto, como se a manhã estivesse pedindo licença para existir. Levei alguns segundos para entender onde eu estava. Outros tantos para lembrar quem eu era ali dentro.
E então lembrei de tudo.
Do beijo.
Do sonho.
Do despertar que ainda ardia no corpo como uma febre discreta.
Fechei os olhos por um instante, respirando fundo. O silêncio da mansão era diferente durante o amanhecer. Não tinha o peso da noite, e não trazia a segurança de um dia claro. Era um meio termo, entre a calmaria e o caos.
Levantei.
O chão frio encontrou a planta dos meus pés e me puxou de volta para o corpo. Caminhei até o espelho sem acender as luzes. Meu reflexo ainda estava meio diluído pela pouca claridade. Eu parecia outra mulher, talvez fosse.
Escolhi um vestido simples.
Não por modéstia, nem por estratégia. Apenas porque aquele parecia o único tecido que não gritava dentro de mim. Um tom claro, delicado, quase inocente demais para tudo o que eu sentia por dentro. Prendi o cabelo de maneira descuidada, deixando alguns fios soltos ao redor do rosto.
Eu não queria parecer preparada. Queria apenas ser um pouco de mim mesma.
Saí do quarto devagar, como se a casa ainda estivesse dormindo e eu não quisesse acordá-la. O corredor estava vazio. Os quadros nas paredes pareciam observar minha passagem com a mesma indiferença imponente de sempre.
Desci as escadas.
Cada degrau soava mais alto do que deveria no silêncio da manhã. Segurei o corrimão por instinto, não por necessidade física, mas por uma espécie de equilíbrio interno. Quando cheguei ao último degrau, já sentia o cheiro de café se espalhando pelo ar.
Sorri ao ver Tereza se aproximando.
— Bom dia, senhorita Rossi. — disse com um sorriso gentil que me desmontou mais do que qualquer frieza.
— Bom dia… — respondi, ainda com a voz um pouco presa ao sono. — Pode me chamar apenas de Elena, Tereza.
Ela me observou com atenção discreta, como se tentasse ler algo que eu mesma ainda não entendia direito. Depois, sorriu.
— Como quiser Elena. — continuou sorrindo. — Dormiu bem?
Hesitei.
— Dormi… — respondi. Não era exatamente mentira, mas também estava longe de ser verdade.
Ela assentiu, como se compreendesse mais do que perguntou.
— Venha, vou lhe apresentar à cozinha — disse, fazendo um gesto para que eu a acompanhasse.
Foi então que vi a mulher perto do fogão.
— Esta é a Marta — Teresa anunciou. — Nossa cozinheira.
Marta limpou as mãos no avental e sorriu com uma doçura que contrastava com a imponência da casa.
— Prazer, senhorita.
— O prazer é meu — respondi.
O cheiro de massa assando invadia o ambiente, aconchegante demais para aquela mansão que tantas vezes me parecia fria. Fiquei observando a bancada por alguns segundos, como se estivesse decidindo algo importante. E talvez estivesse.
— Marta… será que a senhora poderia me ajudar a preparar alguns biscoitos?
Teresa ergueu as sobrancelhas, surpresa.
— Para o café da manhã? — perguntou.
— Sim — respondi. — Eu… gostaria de levar uma bandeja.
Não precisei dizer para quem, elas podiam imaginar.
— Claro, senhorita — disse Marta. — Vem comigo.



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