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Leilão da Inocência: A Virgem Vendida Para o Bilionário romance Capítulo 54

Por alguns minutos, ficamos em silêncio, aquele tipo de silêncio que antecede verdades que não pedem permissão.

Do lado de fora, o céu parecia uma estrada sem bordas. A sensação de estar suspensa entre dois lugares me lembrava exatamente onde eu vivia nos últimos dias: num meio-termo entre o que eu tinha sido e o que estavam me forçando a me tornar.

Foi Beatrice quem quebrou o silêncio.

— Damian não me contou muitos detalhes. — disse, com naturalidade. — Só falou que sua irmã estava doente e que precisava de um tratamento específico em Milão. E que… — ela sorriu, quase orgulhosa — ele faria o que fosse necessário.

Minha respiração falhou por um segundo.

Olhei para ela.

Ela não fazia ideia do que estava por trás de tudo.

Respirei fundo antes de responder. Era estranho perceber como algumas dores permanecem vivas, mesmo quando a gente tenta enterrá-las.

— Há alguns meses… — comecei, sentindo a voz arranhar por dentro — Sofia estava na escola. Foi um dia comum, até que a professora me ligou… desesperada.

Beatrice se endireitou no banco, a expressão mudando imediatamente.

— O que aconteceu?

Engoli devagar, como se o passado tivesse textura.

— Ela passou mal. Muito mal. Eu saí do meu emprego correndo, sem nem pensar, e fui direto para o hospital. — Apertei as mãos, respirando fundo. — Foi ali que meu mundo começou a ruir.

A lembrança veio nítida, cruel, inteira.

— Os exames mostraram um tipo de tumor renal raro. — continuei, mantendo a voz firme apesar do tremor. — Um tumor agressivo… mas que respondia bem ao tratamento quando começado a tempo.

Beatrice levou a mão à boca, surpresa e silenciosa.

— Foi difícil. — admiti, e o ar pareceu ficar mais pesado. — Eu parei de trabalhar. Tudo o que eu tinha de valor… tudo mesmo… eu vendi. Não sobrou nada. Mas fiz sem pensar duas vezes, porque era ela. Porque era minha irmã.

A dor voltou como um eco, queimando por dentro.

— Só que o dinheiro acabou, e Sofia ainda precisava de uma cirurgia. O estado dela começou a piorar… muito rápido.

Senti os olhos arderem.

— Os médicos… — minha voz falhou. — Eles disseram que talvez fosse melhor sedá-la, para que ela não sentisse dor.

Beatrice ficou imóvel. Nem piscou.

Eu respirei fundo, tentando não quebrar no meio da frase.

— Beatrice… — sussurrei, sem conseguir disfarçar o tremor. — Ver a minha irmãzinha, de apenas nove anos, passando por tudo isso foi devastador. Eu achei… eu realmente achei que fosse perdê-la.

Um silêncio pesado se instalou.

— Até que um dia — continuei, quase sem voz — eles disseram que não podiam esperar mais. Que ou ela faria a cirurgia… ou ela…

As palavras pararam na minha garganta.

Eu não consegui terminar.

Não consegui pronunciar o que vinha depois do “ou”.

Os olhos de Beatrice ficaram mais sérios.

— Então foi por isso que precisaram interná-la na UTI?

Assenti.

— Ela esteve entre a vida e a morte por algum tempo. — completei, sentindo a voz ameaçar quebrar. — As médicas disseram que um protocolo específico poderia ajudá-la, mas… o custo…

Não precisei terminar, ela entendeu. Beatrice apertou minha mão com mais força.

— E Damian decidiu bancar?

Prendi a respiração por um instante. Essa era a parte em que o mundo dela e o meu se encontravam na superfície e se separavam brutalmente abaixo dela.

— Sim. — respondi, sem mentir. Só não disse como.

Beatrice olhou pela janela por alguns segundos. Um sorriso apareceu nos lábios dela, dessa vez doce, quase emocionado.

— Eu sei que ele não parece — ela começou, divertida — mas Damian é melhor do que as pessoas imaginam.

As imagens vieram como um golpe:

O leilão, os olhos avaliando meu corpo, a assinatura do contrato, o beijo na parede, o quase sorriso no quarto.

Quis rir ou chorar, mas não fiz nenhum dos dois.

Mas as imagens vieram em sequência: Sofia na cama, os tubos, as máquinas, as luzes frias. A frase da médica dizendo “sem esse protocolo, não há muito que possamos fazer”.

Fechei a boca.

— Obrigada por vir comigo — foi o que escolhi dizer.

Beatrice sorriu.

— Obrigada por deixar que eu vá com você — corrigiu. — Eu gosto de Sofia. Mesmo sem conhecê-la ainda.

O helicóptero começou a perder altitude.

Milão surgia sob nós, encaixada em sua arquitetura imponente, organizada, eficiente. Aos poucos, os prédios ganharam tamanho, os carros voltaram a ter forma, as ruas recuperaram a importância.

O hospital apareceu como um bloco branco e vidro no meio da paisagem.

— Estamos chegando. — informou o piloto.

Minutos depois, já estávamos no terraço. A recepção foi rápida, objetiva. Beatrice parecia conhecer aquele lugar com familiaridade, como se já tivesse entrado e saído de hospitais assim muitas vezes ao lado do irmão. Eu caminhava ao lado dela, mas a sensação era de que meu corpo estava dois passos atrás da minha própria mente.

Entramos e o cheiro característico de hospital me recebeu como uma memória física. Pessoas de jaleco passavam de um lado para o outro, algumas apressadas, outras com a calma artificial de quem aprendeu a controlar o próprio rosto.

Cada passo em direção à UTI parecia mais pesado do que o anterior.

Eu ouvia o som do meu coração batendo nos ouvidos. Beatrice falava algo sobre o médico responsável, sobre como Damian havia exigido a melhor equipe, sobre relatórios e atualizações diárias. As palavras chegavam até mim como se atravessassem um vidro grosso.

Paramos diante de uma porta de vidro fosco.

Lá dentro, a vida e a quase-vida se misturavam em leitos, aparelhos e vias silenciosas que separavam uma respiração da outra.

— Pronta? — Beatrice perguntou.

Assenti, mas antes de entrarmos uma enfermeira apareceu.

— Família de Sofia Rossi? — perguntou.

— Sim. — respondi, com a voz trêmula temendo o pior.

Ela nos deixou entrar.

E quase fiquei sem ar ao ver minha irmã sentada na cama e pela primeira vez depois de semanas, com os olhos abertos.

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