Elena Rossi
Por um segundo, eu achei que o mundo tinha errado a própria rotação.
Minha irmãzinha estava sentada na cama de olhos abertos.
Por um instante, meu corpo esqueceu como funcionava. Minhas pernas endureceram, o ar travou na altura do peito, minhas mãos ficaram frias e suadas ao mesmo tempo, como se não soubessem se deveriam segurar, soltar, correr, cair.
Ela estava ali acordada.
Minha irmã, a garotinha de nove anos que eu vi afundar no silêncio das máquinas, agora me olhava de volta.
E sorria.
Um sorriso pequeno, ainda tímido, mas tão vivo que doeu.
As bochechas dela estavam levemente rosadas, como se alguém tivesse devolvido cor ao que tinha sido cinza por semanas. Os olhos verdes brilhavam sob a luz branca e fria da UTI, uma espécie de farol familiar em meio a todo aquele cenário clínico e estranho. E, sobre a cabeça, a toquinha de lã com o rosto de um ursinho, as orelhinhas caídas para o lado, protegendo o lugar onde antes havia fios ruivos que ela amava pentear na frente do espelho.
A toquinha era fofa. A razão dela existir, não.
Senti o estômago afundar, como se algo tivesse puxado tudo para baixo.
— Lena? — a voz dela cortou o ar como um raio manso, doce, e completamente devastador.
Eu não estava pronta. Nenhum dos cenários que eu tinha montado na mente incluíam a forma como o meu nome soaria ali, daquele jeito. Metade criança, metade ressuscitação.
Meus olhos arderam tão rápido que eu não tive tempo de pensar em disfarçar.
Beatrice parou ao meu lado, em silêncio. Eu mal lembrava que ela estava ali. O mundo inteiro tinha virado corredor, porta de vidro e Sofia, com sua toquinha de ursinho e olhos que ainda sabiam me reconhecer.
Eu dei um passo, depois outro. Minhas pernas finalmente entenderam que, se elas não se movessem, nada daquilo seria real. A cada passo, era como se eu atravessasse uma versão diferente do inferno e do paraíso ao mesmo tempo.
— Oi, pequena… — minha voz saiu rouca, estranha até para mim. — Oi, meu amor.
Ela se ajeitou na cama, com cuidado, por causa dos fios, dos sensores, das linhas de soro que ainda a cercavam como uma pequena teia transparente.
— Você demorou. — disse, fazendo um bico leve, dramático, do jeito que sempre fazia quando queria atenção.
Eu ri. Ou tentei.

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