Elena Rossi
Sofia mordeu o lábio inferior, avaliando minha resposta com uma seriedade inesperada para uma criança.
— Eu sei. — disse, por fim. — A senhora de cabelo castanho e jaleco falou que você é teimosa.
— Qual delas? — perguntei, fungando, tentando recuperar algum humor.
Sofia pensou por um segundo, com os olhos virados para cima, como se revirasse um arquivo interno.
— A que tem o nome difícil. — murmurou. — Patrícia… alguma coisa.
Um riso escapou da minha garganta, dessa vez mais inteiro.
— Arquette. — completei. — Doutora Patrícia Arquette.
— Ela mesma. — Sofia sorriu, satisfeita. — Ela disse que você brigou com meio mundo pra ficar aqui.
“Meio mundo” era pouco. Eu tinha brigado com o mundo inteiro, inclusive com o que eu acreditava ser certo, com a minha própria noção de dignidade, com a minha habilidade de olhar no espelho.
Eu passei por cima de tudo.
Por ela.
Beatrice deu um passo à frente, aproximando-se da cama com um sorriso suave no rosto. Eu tinha quase esquecido que ela estava ali, mas Sofia não.
Os olhos verdes se voltaram para Beatrice com curiosidade imediata.
— Oi. — disse, com a naturalidade de quem nunca esqueceu como se faziam amigos. — Você é muito bonita, é amiga da Lena?
Beatrice riu, surpresa.
— Sim, somos amigas. — respondeu, aproximando-se mais um pouco, cuidadosa, como se tivesse medo de invadir alguma coisa sagrada. — E você é a garotinha corajosa e linda que tanto Elena fala?
Sofia estufou o peito, orgulhosa.
— Sim sou eu. — disse.
Beatrice lançou um olhar rápido para mim, e eu vi algo brilhar ali. Porque ela acreditava numa versão da história onde seu irmão era apenas o homem que ajudava, não o homem que comprava.
— É um prazer te conhecer, Sofia. — Beatrice respondeu. — Eu sou a Beatrice. E… eu gosto muito da sua irmã.
Sofia sorriu de um jeito que iluminou o quarto inteiro.
— Eu também. — ela disse, como se estivesse anunciando uma verdade absoluta. — Mesmo quando ela chora escondido no banheiro e fala que não vai chorar.
Meu rosto pegou fogo.
Dra. Patrícia Arquete estava parada à entrada, com o jaleco impecável, os cabelos castanhos presos num coque alto, o crachá pendurado, o olhar atento e, naquele momento, iluminado por um sorriso raro.
Não era o sorriso de quem entrega boas notícias mecânicas. Era o sorriso de quem vê um milagre que ajudou a construir.
Ela se aproximou da cama com passos tranquilos, habituada a andar entre aparelhos sem parecer deslocada.
O olhar dela pousou em Sofia, depois em mim, depois rapidamente em Beatrice, como quem catalogava presenças, afetos, responsabilidades.
— Muito bem, mocinha. — disse, num tom leve, mas firme. — Vejo que o quarto está cheio de fãs hoje.
Sofia sorriu, orgulhosa.
— Eu sou famosa agora? — perguntou.
— Sempre foi. — respondi antes que a médica pudesse falar. — Só faltava o mundo perceber.
Dra. Patrícia manteve o sorriso, mas seus olhos ganharam um contorno mais sério, um brilho de conversa importante que ainda não tinha sido dita.
Ela se aproximou de mim e falou:
— Elena e Sofia … — sua voz era suave, mas carregada de propósito. — Nós precisamos conversar.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Leilão da Inocência: A Virgem Vendida Para o Bilionário