A Dra. Patrícia Arquette não tirou os olhos de Sofia enquanto falava que elas precisavam conversar, mas, antes que qualquer coisa começasse, ela lançou um olhar rápido para mim.
Foi um olhar de médico, mas também de cúmplice.
— Elena, você pode ficar aqui. — disse, com gentileza. — Isso também é sobre você.
Meu corpo inteiro já estava em frangalhos, então apenas assenti. Eu não conseguiria dar um passo para fora daquela sala naquele momento, mesmo que quisessem me arrastar.
A Dra. Patrícia puxou a cadeira um pouco mais para perto da cama, apoiou os cotovelos nos joelhos e entrelaçou as mãos, como se estivesse conversando com alguém muito mais velho do que uma menina de nove anos usando uma toquinha de ursinho.
— Sofia… — começou, num tom leve, mas cheio de significado. — Lembra de tudo que conversamos de manhã? Os remédios, os exames, as máquinas, as picadinhas chatas?
Sofia fez uma careta memorável.
— Nunca vou esquecer as picadinhas. — disse. — Acho que já tenho mais furos que um queijo suíço.
Eu ri pelo nariz. Beatrice sorriu ao meu lado e a médica soltou um suspiro divertido.
— Pois é. — continuou. — Mas todas essas coisas chatas tinham um propósito. E é sobre isso que eu quero falar. Eu acabei de revisar seus exames. De novo. E…
Ela fez uma pequena pausa.
Naquela fração de segundo, meu coração parou. O mundo encolheu em volta da expressão dela, como se a sala inteira esperasse a próxima frase.
— Eles mostram algo muito importante. — completou. — O tratamento está respondendo melhor do que a gente esperava.
O ar saiu de mim como se alguém tivesse aberto uma válvula.
Melhor do que esperava.
Sofia piscou, confusa.
— Isso é… bom? — perguntou, como se quisesse ouvir a palavra certa, clara, sem código médico.
— Isso é muito bom. — respondeu a doutora, sorrindo de verdade agora. — Tão bom que, se tudo continuar assim nas próximas horas, daqui a dois dias você vai sair da UTI e ir para um quarto.
Eu não percebi que tinha levado a mão à boca até sentir o gosto salgado de uma lágrima.
Quarto. Não mais tubo, nem uma respiração emprestada.
Sofia arregalou os olhos, as bochechas ficando ainda mais rosadas sob a luz branca.
— Sair daqui? — ela repetiu, como se testasse o som da frase. — Eu… eu vou poder tirar algumas dessas coisas?
— Vamos tirar muitas delas aos poucos. — prometeu a médica. — E, se você continuar se comportando como a paciente campeã que é, vamos começar a falar de outra coisa muito importante.
— Voltar para casa? — Sofia arriscou, cheia de esperança.
A Dra. Patrícia sorriu com ternura.
— De vida normal. — corrigiu. — Escola, amigos, cabelo crescendo de novo, menos consultas, mais tardes de desenho animado e menos enfermeiras te acordando às seis da manhã.
Sofia soltou uma risada que quase fez meu corpo desmoronar.
Vida normal.
Essa frase era tão grande que mal cabia dentro da sala.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Leilão da Inocência: A Virgem Vendida Para o Bilionário