“O que não foi pedido… ainda assim pode mudar tudo.”
O helicóptero cortava o céu de Florença como uma lâmina silenciosa.
Lá embaixo, a cidade diminuía depressa, virando manchas de telhado, ruas finas, movimentos que já não me pertenciam naquele instante. O vento batia forte contra a fuselagem e fazia meus cabelos dançarem soltos, mas eu mal percebia.
Tudo dentro de mim pulsava num único ritmo, repetindo como um mantra desgovernado, antes que tudo mudasse:
Eu preciso contar pra ele.
Ao meu lado, Beatrice observava a paisagem com tranquilidade, como se aquele voo fosse apenas mais um deslocamento qualquer. Para mim, era uma travessia inteira. Eu voltava do hospital diferente. Não apenas mais leve, mas perigosamente viva.
Pela primeira vez em meses, eu não deixava a UTI levando medo.Eu levava uma notícia boa.
Um milagre pequeno, torto, ainda cercado de fios, sondas e cuidados. Um milagre que respirava com dificuldade, mas respirava. Um milagre com nome, com sorriso, com voz me chamando de “Lena”.
Sofia estava acordada.
Fechei os olhos por um segundo dentro da cabine, sentindo o coração bater rápido demais para o espaço estreito do meu peito. O alívio vinha misturado à culpa, à gratidão e ao pavor de perder tudo de novo. Eu não sabia como sustentar aquela felicidade, como se sentir demais pudesse chamar o azar de volta.
Era alegria em estado de vigília. Felicidade com medo de existir.
E, gostando ou não de admitir, tudo isso tinha um único sobrenome por trás. Um nome que eu não pedi para carregar comigo, mas que agora pesava em cada batida do meu coração.
Damian.
Quando o helicóptero começou a descer em direção à mansão, o peso do que me esperava voltou a se acomodar sobre os meus ombros. Eu não estava indo apenas para casa. Eu estava indo ao encontro de tudo aquilo que eu ainda não sabia como agradecer… Nem como pagar.
O helicóptero começou a perder altitude, inclinando-se com suavidade enquanto o heliponto da mansão se aproximava. O vento levantado pelas hélices agitava a grama recém-cortada, as árvores ao redor e alguns cascalhos soltos que corriam pela superfície como pequenos animais assustados.
Meu coração voltou a disparar, não por causa do voo, mas da chegada. Da proximidade inevitável. Do peso das palavras que eu sabia que precisaria dizer assim que o visse.
Quando tocamos o solo, o impacto leve percorreu a cabine como um aviso que eu estava de volta ao mundo dele e pela primeira vez desde que tudo isso começou, eu não temi.
As portas foram abertas e o ar da tarde entrou quente com força, misturando cheiro de flores com o toque metálico do helicóptero. Beatrice desceu primeiro, com a elegância nata de quem transforma qualquer cenário em passarela. Eu a segui, ajeitando o casaco no corpo para disfarçar o leve tremor nas mãos.
Um carro preto já aguardava ao lado do heliponto. O motorista de Damian estava posicionado ao lado da porta traseira aberta, como se tivesse ensaiado aquele gesto centenas de vezes.
A postura era impecável, a expressão, absolutamente neutra, não por indiferença, mas por treinamento. Um tipo de neutralidade construída para não deixar escapar nada da vida que existia além daquele papel, atrás dos muros invisíveis que ele jamais cruzaria.
Beatrice pousou a mão no meio das minhas costas, conduzindo-me com um gesto suave, quase protetor.
— Você está bem? — perguntou, inclinando levemente o rosto para me observar.
Eu assenti. Mesmo que não fosse verdade, me sentia melhor do que nas semanas anteriores, porque havia um motivo que me fazia sorrir novamente.
O motorista fechou a porta com cuidado, isolando-me do vento, do barulho das hélices ainda desacelerando, e também daquela parte de mim que sempre queria fugir antes de sentir.
A viagem até a entrada da mansão foi curta, curta demais. O portão se abriu automaticamente, como se reconhecesse a presença do carro. A casa surgiu imponente contra a luz dourada da tarde, silenciosa e perfeita demais, como se guardasse segredos que preferiam não ser perturbados.
Mantive a expressão firme, apesar do aperto que sentia dentro do peito.
Eu esperava vê-lo.
Esperava que Damian estivesse ali, em algum lugar do hall, subindo as escadas, ou falando ao telefone com aquela postura rígida, autoritária, impossível.
Esperava qualquer sinal dele, mas, quando entrei, a mansão estava vazia e silenciosa. A ausência dele era tão forte quanto a sua presença, talvez mais. Porque me obrigava a sentir sem o escudo da distância.
O som do meu próprio passo sobre o mármore pareceu ecoar pelo hall inteiro. O motorista se afastou discretamente, deixando-me ali, sozinha, mas cheia de algo que eu ainda não sabia nomear. Eu segui pelo corredor familiar, subindo as escadas com expectativa e frustração misturadas em cada batida do coração.
Eu precisava contar pra ele.
Mesmo que ele não estivesse ali para ouvir. Mesmo que, ao dizer em voz alta, eu mudasse algo que talvez nunca pudesse ser desdito.
Quando alcancei o topo das escadas, respirei fundo antes de seguir até meu quarto. A porta estava entreaberta, um detalhe pequeno, mas suficiente para fazer minha pele arrepiar.
Empurrei-a devagar e então, vi.

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