“Há momentos em que o poder não pergunta. Ele apenas estende a mão.”
Elena Rossi
Eu queria que ele me olhasse diferente naquela noite. E, no fundo, sabia exatamente o que isso significava.
O restaurante era sofisticado, mas sem excessos. Cada detalhe parecia pensado para quem valorizava privacidade e discrição.
Damian entrou primeiro.
O maître reconheceu-o no mesmo instante. Não houve perguntas, apenas um leve aceno de cabeça e um gesto respeitoso indicando a mesa reservada ao fundo, próxima ao piano. Damian caminhou com passos firmes, sem pressa, como alguém que sabia exatamente onde estava e por que estava ali.
Eu o segui.
E, ainda antes de me sentar, senti o peso do olhar dele sobre mim.
Damian puxou a cadeira com um gesto preciso, controlado. Não havia teatralidade, apenas a certeza silenciosa de quem está acostumado a comandar ambientes inteiros com movimentos mínimos.
— Obrigada — murmurei.
Minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia.
Sentei-me ciente do vestido tocando a pele e da fenda abrindo conforme eu me acomodava na cadeira. Não fiz nada além do necessário para sentar. Ainda assim, sabia que o movimento chamava atenção.
Ao levantar o olhar, notei que Damian continuava em pé. Ele me observava em silêncio, sem disfarce, avaliando cada detalhe com calma antes de finalmente se sentar à mesa.
O silêncio entre nós não era desconfortável, era intenso, íntimo. O tipo de silêncio que prevê acontecimentos.
O calor subiu pelo meu rosto e desviei o olhar por um segundo, mordendo o lábio inferior numa tentativa inútil de conter o nervosismo. O gesto foi involuntário, mas não passou despercebido por Damian, que estreitou os olhos levemente. Ele não disse nada, mas senti uma mudança sutil no ar.
O maître se aproximou com a carta de vinhos aberta, com a postura impecável de quem sabia exatamente quando falar e quando desaparecer.
— Boa noite, senhor Cavallari. Posso oferecer a carta de vinhos?
Damian sequer desviou o olhar de mim.
— Um Brunello di Montalcino, safra especial. — disse, com a voz firme, baixa. — Traga a melhor garrafa.
O maître assentiu sem questionar e se afastou com a mesma discrição com que havia chegado.
Damian não desviou o olhar em nenhum momento. Mesmo quando ajustou a postura, a atenção dele permaneceu inteira em mim.
Eu sustentei o olhar dessa vez e antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, qualquer comentário banal que aliviasse a tensão, ele falou:
— Este jantar é para comemorarmos a recuperação da Sofia.
Por um segundo, o mundo pareceu desacelerar.
— O quê? — perguntei, mesmo tendo ouvido perfeitamente.
Ele observou meu rosto enquanto eu falava. Não olhou para o pianista, nem para o salão, era em mim que seus olhos estavam presos.
A mim.
— Quer dançar?
O pedido me pegou desprevenida.
— Não… — sorri, nervosa. — Eu… tenho vergonha.
Damian levou a taça aos lábios com calma. Bebeu um gole lento e em seguida, desviou o olhar por um breve instante para o maître, que permanecia atento à distância.
Não disse uma palavra, mas foi como se o homem tivesse entendido exatamente o que ele queria.
Em poucos minutos, o salão começou a esvaziar de forma quase imperceptível. Mesas sendo recolhidas, clientes sendo conduzidos para outras áreas, luzes suavemente ajustadas. Quando percebi, éramos apenas nós dois e o piano.
Eu encarei Damian, confusa.
— O que está acontecendo?
Ele não respondeu de imediato. Apenas se levantou, ajeitando o paletó com um movimento elegante, e estendeu a mão para mim.
— E agora… — disse, com a voz baixa, firme. — Qual a sua desculpa para não ser minha essa noite, Elena. Posso destruir todas. Então, só vem.

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