“Há riscos que se tomam com o corpo e há riscos que só o coração conhece.”
Damian Cavalari
Saí do quarto e deixei Elena para trás.
Ainda podia sentir o calor daquele quarto na pele, não o da calefação, mas o calor íntimo que só existe quando uma mulher dorme ali, vulnerável, entregue, e completamente alheia ao tipo de caos que pode provocar num homem que não deveria reagir.
A porta fechou, mas meu corpo demorou para aceitar a ordem de se afastar. Havia uma tensão nos músculos, uma vontade tola e primária que não tinha sido saciada, apenas contida.
Conter não significa não querer. Significa apenas não avançar. E avançar, naquela noite, teria sido fácil demais.
O problema é que houve um momento em que quase deixei a decisão para o corpo. Quando ela se desfez na minha boca, quando as pernas tremeram e as mãos buscaram alguma coisa para segurar, quando o pescoço arqueou e ela mordeu o próprio lábio tentando abafar o som… ali, por um breve instante, eu estive a um movimento do desastre.
Eu a quis.
Quis acabar com o resto da distância que existia entre nós. Quis tomá-la inteira, descobrir o que vinha depois daquele tremor. Mas isso seria sexo por contrato e eu não queria dormir com ela por isso.
Eu não a comprei por submissão, nem por gratidão, nem para ser uma história que ela só saberia explicar na terceira pessoa. Eu a arrematei naquele leilão porque eu queria confirmar para mim que ninguém era capaz de tanto por amor. Que o amor é um sentimento cruel que prende, manipula e machuca. Mas esses meses ao lado dela, pequenos gestos tem me feito questionar se de fato, o amor é isso, ou apenas eu tive a infelicidade de nunca amar.
Talvez o que eu tenha sentido por Valentina tenha sido algo superficial, ou eu tenha confundido posse com entrega e controle com intimidade.
Quando atravessei o saguão, o motorista levantou o rosto na minha direção como quem oferece um gesto formal de reconhecimento, mas eu não quis mediações naquela manhã. A sensação de proximidade me irritava. Entrei no carro sozinho e o fechei por dentro sem dizer nada, preferindo o silêncio da cabine ao constrangimento de alguém me olhando como se eu fosse o mesmo homem que saiu pela porta na noite anterior.
Eu não era.
Liguei o carro e deixei que o motor preenchesse o espaço entre meus pensamentos, mas não foi suficiente para bloquear o que o corpo insistia em revisitar.
A noite voltou como se a memória tivesse decidido me punir: Elena arqueando no banheiro, as costas coladas ao azulejo quente, a água escorrendo pela curva da cintura enquanto o meu nome escapava dos lábios dela num tom que nenhuma mulher jamais usou comigo.
Eu poderia tê-la tomado. Ter cruzado a última linha, ela não teria me impedido. Mas esse não era o problema. O problema é que eu quero mais que um corpo que deseje, eu quero uma alma que diga sim
Eu quero Elena de um jeito que não esperava.
Quero que ela me deseje. Que me queira com o mesmo abandono inconsciente com que morde o lábio quando sente demais. Que me olhe depois com aquela mistura absurda de desafio e vulnerabilidade que só ela sustenta.
Não quero ganhar Elena por pagamento.
Quero ganhar Elena por escolha, que ela venha para mim porque não conseguiu não vir. Que ela se entregue por completo porque deseja, e não porque temos um acordo.
Segurei o volante com firmeza porque o corpo reagiu antes que eu pudesse impedir. Os homens gostam de fingir que a mente comanda tudo, os mais velhos descobrem cedo demais que a mente só observa, interpreta e tenta manter a dignidade enquanto o resto decide sozinho.
O problema não era o desejo.
O desejo era simples, quase infantil. Podia ser resolvido, ignorado ou administrado. O que me incomodava era a entrega, a forma como Elena dormiu encostada no meu peito, como se aquilo fosse natural, como se eu fizesse parte de uma rotina que nunca existiu entre nós. Dormir ao lado de alguém é mais íntimo do que qualquer ato sexual. O sexo é impulso, o sono é confiança.

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