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Leilão da Inocência: A Virgem Vendida Para o Bilionário romance Capítulo 74

“Antes de amar um homem, é preciso conhecer o mundo que o fez.”

Elena Rossi

A batida na porta veio exatamente quando eu terminei de dizer para o espelho que estava perdida.

Não era forte, nem impaciente. Três toques educados, como se quem estivesse do outro lado soubesse que qualquer coisa acima da delicadeza faria tudo desmoronar.

Terminei de colocar o vestido às pressas, o tecido deslizou sobre a pele ainda sensível, e passei as mãos pelos cabelos, tentando parecer mais composta do que realmente estava. As marcas no corpo estavam cobertas, mas a memória delas, não.

Abri a porta.

— Bom dia, Elena. — Beatrice sorriu com aquela elegância que só quem cresceu cercada de etiqueta consegue sustentar sem esforço. — Pronta?

“Pronta” era uma palavra generosa demais para o meu estado, mas assenti.

— Acho que sim.

Os olhos dela fizeram um percurso rápido por mim, não invasivo, mais atento. Beatrice enxergava mais do que dizia, e dizia mais do que qualquer pessoa sensata revelaria em voz alta. A sobrancelha arqueou de leve, só o suficiente para registrar que ela havia notado algo diferente em mim, sem denunciar exatamente o quê.

— Ótimo. — Ela girou nos saltos. — O carro está nos esperando.

Segui pela suíte, prendendo a pulseira no pulso enquanto atravessava a sala. O cheiro de café ainda pairava no ar, misturado a um perfume masculino que meu corpo identificou antes da minha mente. Damian já tinha saído, mas a presença dele permanecia espalhada pelo ambiente como um lembrete silencioso da noite anterior.

Beatrice caminhava à frente com naturalidade, como se estivesse em sua própria casa. De certo modo, estava. Ela conhecia cada canto daquele mundo antes de eu sequer saber da existência dele.

— Dormiu bem? — perguntou, casual.

Pisquei.

— Mais ou menos.

— Mais ou menos pode querer dizer muitas coisas. — Ela sorriu, mas havia curiosidade calculada ali. — Pesadelos? Fuso horário? Ou…

A frase ficou no ar, suspensa, oferecendo espaço para que eu completasse. Não completei.

— Só… só uma noite longa. — respondi, escolhendo a versão mais neutra da verdade.

Beatrice inclinou ligeiramente a cabeça, como quem aceita a resposta, mas guarda a pergunta para depois.

— Entendo. — murmurou.

Quando chegamos no térreo Tereza se aproximou com um sorriso nos lábios e perguntou:

— Não vai fazer o desjejum senhorita Rossi?

Me virei encarando a governanta com um sorriso no rosto. Tereza sempre foi gentil comigo desde o primeiro dia que cheguei naquela casa. A encarei com ternura mas antes de responder, Beatrice falou:

— Não Tereza, vou levar essa mocinha para um café da manhã naquela cafeteria próximo do museu. Tenho certeza que Elena vai amar.

— Francesca. — Beatrice completou, com um sorriso triste nos lábios. — Ela sempre dizia que o mundo só fazia sentido quando havia arte suficiente para suportar a feiura das pessoas.

Aquilo não parecia uma frase jogada, era memória.

Entramos e tudo parecia ter sido preparado para encantar.

— Minha mãe amava este lugar. — Beatrice continuou, caminhando devagar, como se o chão também lhe pertencesse. — Não exatamente este prédio, porque ele foi reformado depois, mas… o conceito. A ideia de que alguém podia fugir, por algumas horas, de tudo o que era pequeno e mesquinho no mundo, só porque escolheu olhar para algo belo.

— Ela trabalhava aqui? — perguntei.

— Era curadora. — respondeu, com evidente orgulho. — A melhor que esse país já viu, embora ela nunca admitisse isso. Tinha um olhar absurdo para artistas novos. Encontrava beleza onde ninguém estava prestando atenção.

Beatrice parou diante de um quadro em tons de azul e dourado, inclinando a cabeça, como se conversasse silenciosamente com um fantasma.

— Eu puxei isso dela. — Admitiu. — A obsessão por detalhes, a paixão pelo que é estético, pela composição certa. Ela dizia que um quadro mal colocado na parede podia estragar uma história inteira.

Eu a observava tanto quanto observava o museu. Havia algo na forma como Beatrice falava que fazia tudo soar íntimo, pessoal, mas sem se transformar no melodrama. Era uma elegância emocional rara.

— E o seu pai? — perguntei, com cuidado.

A mudança foi sutil, mas perceptível. Os olhos dela pareceram escurecer meio tom. O sorriso esmoreceu nas bordas, não chegou a desaparecer, mas ficou tenso.

— Meu pai… — repetiu, como se estivesse decidindo quanto dizer. — Ele é um capítulo à parte.

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