“Nem todo poder destrói. Alguns curam.”
Elena Rossi
Alessandro chegou quinze minutos depois da ligação terminar.
O ronco do motor cortou o silêncio do pátio e se espalhou pela frente da mansão antes mesmo do carro parar diante da escadaria.
Beatrice saiu primeiro, empurrando a porta com a pressa habitual. O conjunto de saia e blusa, leve e elegante, balançou contra as coxas quando ela desceu os dois primeiros degraus. A luz dourada do fim da tarde realçou o sorriso grande no rosto dela. Quem visse não imaginaria por um segundo sequer que tínhamos passado a manhã inteira juntas.
— Elena… — ela disse, e só a forma como respirou já denunciava a euforia — você não tem ideia.
Eu mal tive tempo de perguntar “ideia do quê”, porque ela já me puxava pelo pulso, como quem tem pressa de contar algo antes que a vida atrapalhe.
Alessandro desceu logo depois, fechando a porta do carro com a calma de quem sabe que o mundo se move mais rápido do que deveria e que a única maneira de sobreviver a isso é não correr junto. Ele ajeitou o blazer, fez um gesto quase imperceptível com o queixo para mim e depois olhou para Beatrice com uma espécie de fascínio silencioso que só homens muito apaixonados conseguem disfarçar mal.
— Está tudo pronto — ele informou. — O helicóptero já está no heliponto. O piloto espera por vocês.
Beatrice bateu palmas, literalmente bateu palmas, e eu quase sorri com o absurdo daquele gesto. Ela parecia uma criança que sabe que o presente já está comprado e só falta alguém autorizar a abertura do pacote.
— Sofia vai ter uma surpresa — ela anunciou, cheia de importância.
Eu parei de andar e a encarei confusa.
— Surpresa? — repeti, com a voz mais fina do que gostaria.
Beatrice inclinou o rosto na minha direção e arqueou as sobrancelhas só um pouco, como quem provoca sem precisar de palavras. Um canto da boca subiu primeiro, depois o resto, formando um sorriso lento, meio maldoso, meio cúmplice. Prendi a respiração por um instante e só depois soltei o ar devagar, como se meu corpo entendesse o que aquele sorriso significava.
Antes que eu pudesse insistir, Alessandro passou ao lado, com uma das mãos no bolso, o outro braço se estendendo para tocar de leve as costas da namorada. Era perceptível o cuidado que ele tinha com a namorada, algo que não se via muito no mundo em que eles vivem, onde demonstrações de afeto não são muito comuns.
Beatrice entendeu na hora e ergueu levemente as sobrancelhas em resposta.
Eu insisti:
— Surpresa… o que isso quer dizer?
Ela respirou fundo, como quem tenta segurar uma informação que já está pronta para escapar pelos lábios.
— Você vai ver — respondeu, simplesmente.
Alessandro deixou escapar um sorriso diferente. Não o social, treinado para jantares e reuniões. Nem o estratégico, que ele usava para vencer disputas. Era um sorriso genuíno, leve, quase íntimo, um elogio silencioso à mulher que ele amava justamente por ser exagerada, emotiva e impossível de ignorar.
Eu não insisti mais. Não porque estava satisfeita, mas porque, de repente, meu coração entendeu o que minha mente não conseguia processar.


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