“Todo milagre cobra um preço. Todo amor também.”
Elena Rossi
Alessandro nos ajudou a subir, quando nos acomodamos, ele sentou ao lado, e por alguns minutos ninguém falou nada. O som das hélices ocupava o silêncio, mas por dentro eu estava ansiosa.
Por um momento fechei os olhos e me lembrei do dia em que os médicos disseram que se minha irmã não fizesse a cirurgia iria morrer. Lembrei do meu desespero, de como saí caminhando daquele hospital disposta a fazer qualquer coisa para salvá-la. Recordo o momento exato que ouvi uma conversa que falava sobre um leilão reservado para homens poderosos que compravam tudo. Não tinha muito a oferecer a não ser a mim mesma.
Naquela mesma noite, peguei o meu melhor vestido e fui ao local disposta a tudo.
Não sabia quem ia encontrar. Não sabia o preço, nem o que estava vendendo, se era meu corpo, minha dignidade ou a minha esperança. Só sabia que precisava salvar minha irmã.
O helicóptero ganhou altitude e a cidade começou a encolher sobre nós. O som das hélices marcava o tempo, mas era meu coração que ditava o ritmo.
Sofia estava curada e era isso que importava.
Fechei os olhos e senti a emoção subir, quente e impossível de controlar, como se alguém abrisse uma porta que eu mantinha trancada desde o primeiro diagnóstico.
Por um segundo, quase chorei.
Hoje minha irmã estava viva porque um homem misterioso tomou a decisão de salvá-la. Um homem frio para o mundo, mas inegavelmente humano para ela.
E eu sabia o nome dele.
Damian Cavallari.
O helicóptero seguia seu curso, mas minha mente estava lá atrás, no leilão, no contrato, nos olhos dele me avaliando como se pudesse me desmontar e remontar inteira só com o olhar. Na noite em que tudo começou sem que eu percebesse.
Eu abri mão de mim para salvar Sofia.
E ele, por alguma razão que eu ainda não compreendia, decidiu não me destruir. Decidiu salvá-la junto comigo.
A cidade continuava pequena, mas meu peito não. Estava cheio de alívio, de cansaço, de amor, de medo e daquela coisa que eu nunca tive coragem de admitir.
Eu estava perdidamente apaixonada por ele.
O problema é que ninguém se apaixona por homens como Damian sem pagar um preço. E eu ainda não fazia ideia de qual seria o meu. Quando o helicóptero começou a descer, senti o tipo de sensação que só acontece quando a vida resolve mudar de fase sem pedir permissão.
Beatrice apertou minha mão. Alessandro ajeitou o blazer. E eu respirei fundo, porque, pela primeira vez em muito tempo, não era o medo que me guiava.
Era esperança.
E, para quem já esteve no fundo, isso é quase um milagre.
Quando as portas do helicóptero se abriram, o vento quente da hélice ainda chicoteava os cabelos e levantava a barra da saia de Beatrice. Ela não esperou o piloto sinalizar. Apenas agarrou minha mão e me puxou, como se o chão estivesse atrasado e a vida tivesse pressa.
— Acho melhor você entrar — disse, abrindo espaço para mim.
Agradeci com a voz que mal encontrei, peguei a bolsa perto do peito como se precisasse de algo para segurar o corpo, e caminhei.
Quando entrei na UTI, meu coração acelerou antes mesmo de encontrá-la.
Eu sabia que ela estava lá, que estava bem, mas nada no mundo nos prepara para olhar de novo quem quase perdemos.
E então eu a vi.
Sofia estava sentadinha numa poltrona ao lado de uma enfermeira, usando um vestido amarelo estampado de margaridas, como se alguém tivesse decidido vesti-la com a promessa da primavera. A touca amarela realçava o rosto corado, e os olhos… ah, os olhos eram meus. Verdes, redondos, curiosos, brilhando como quem finalmente voltou à vida.
Eu parei só para respirar e tentar não cair. E quando ela levantou o rosto e me viu, o sorriso surgiu tão rápido e tão verdadeiro que não sobrou espaço para nada além de amor.
— LENA! — ela gritou, com a alegria sem filtro das crianças que nunca aprenderam a medir emoção. — Você veio!
Eu sorri. E desabei por dentro.
Porque, naquele instante, não existia leilão, contrato, preço ou destino.
Existia só ela. E ela estava viva.

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