“Desejar é simples. Ceder é outra coisa.”
Damian Cavalari
Voltei para casa com o cansaço típico de quem passou horas discutindo poder com pessoas que confundem influência com inteligência.
Cruzei o hall e senti o peso do paletó sobre os ombros aumentar antes de finalmente tirá-lo, como se o gesto fosse suficiente para aliviar metade da carga do dia. Joguei a peça sobre a poltrona mais próxima e soltei o ar devagar, com o maxilar contraído, sentindo a tensão acumulada ao longo da tarde se instalar no pescoço e nas costas como um lembrete desagradável de que o corpo cobra o que a mente insiste em ignorar.
Tereza surgiu poucos segundos depois, com a postura impecável e o mesmo respeito silencioso de sempre. Ela não fazia perguntas antes da hora, nunca o fizera, e esse era um dos motivos pelos quais era uma das poucas pessoas que eu permitia ocupar aquele espaço. Esperou que eu olhasse na direção dela antes de abrir a boca.
— Boa noite, senhor Cavallari.
Assenti apenas com o queixo, um gesto curto, automático, quase preguiçoso, mas suficiente para que ela entendesse que eu estava no limite da minha capacidade de comunicação civilizada.
— Deseja jantar? — ela perguntou, e a voz vinha neutra, mas carregava um cuidado discreto, quase maternal, que ela sempre demonstrou.
Desapertei o nó da gravata enquanto respondia:
— Já jantei.
O tom saiu seco, mas não rude. Tereza sabia diferenciar as duas coisas. Fez menção de se retirar, e foi quando hesitou por um instante. O suficiente para eu levantar os olhos e responder.
— Pode se recolher. — acrescentei.
Ela inclinou a cabeça e diferente do que esperei, não foi embora.
— E a senhorita Rossi, senhor? Não vai dormir em casa hoje?
A porta do quarto dela estava entreaberta. Empurrei com a mão e entrei, mesmo sabendo que não deveria. Negar uma vontade nunca foi o problema, o problema sempre foi escolher o momento exato de ceder.
O quarto carregava o cheiro dela antes de qualquer outro detalhe surgir. Não o cheiro óbvio de perfume, mas o rastro quente de pele depois do banho, a mistura delicada de algo cítrico com algo floral, e mais alguma coisa que eu nunca soube nomear porque nomear o que não se entende é reduzir.
Me aproximei da cama e vi a camisola estendida como um erro calculado. Passei os dedos pelo tecido e senti a maciez contra a pele da mão, um toque suave, leve, quase irônico, considerando o tipo de guerra que eu travava comigo mesmo há semanas. Levei o tecido até o rosto e fechei os olhos por instinto, respirando devagar, como se houvesse lógica em prolongar uma experiência que eu deveria ter encerrado antes de começar.
Bastou o cheiro para algo em mim acordar. A respiração ficou acelerada e senti o peso do próprio corpo mudar, aquela excitação silenciosa que não avisa, só se impõe. Era irritante pela precisão e inevitável pelo motivo.
— Droga… — murmurei, e senti o maxilar travar ao pronunciar a palavra. — O que está acontecendo?
Perguntas feitas no vazio são para homens fracos ou apaixonados. Eu não admitia ser nenhum dos dois.
Mas o corpo não mente. E o que me assustava não era o querer, era o sentir.

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