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Leilão da Inocência: A Virgem Vendida Para o Bilionário romance Capítulo 85

“Alguns homens aparecem mesmo quando não chegam.”

Elena Rossi

O quarto parecia maior quando a porta finalmente se fechou atrás da última enfermeira. O silêncio tomou conta do quarto por apenas uns segundos. Por um instante eu pude ouvir o som da respiração de Sofia como quem reencontra uma música que quase esqueceu como se canta.

Ela estava sentada no meio do tapete azul-claro, com o ursinho “mel” entre os braços, olhando para o castelo iluminado como se tentasse memorizar cada lâmpada de estrela individualmente, como se um dia precisasse relatar tudo com exatidão.

— Lena… dá pra ficar acordada até mais tarde hoje? — perguntou, sem tirar os olhos do castelo.

Sorri ao me aproximar.

— Hoje pode. — respondi. — Hoje é um desses dias em que as regras não sabem onde dormir.

Ela riu, aquele riso que sempre trouxe luz, até nos dias mais sombrios da minha vida. Depois virou para mim e levantou os braços num pedido silencioso que eu conhecia antes mesmo dela nascer.

Peguei Sofia no colo com cuidado, sentindo o peso leve demais para carregar tanta coragem.

— Banho? — perguntei.

Ela assentiu, colocando o ursinho na cama como se o deixasse de guarda.

No banheiro, a água quente começou a encher a pequena banheira com o vapor delicado que subia até o espelho. Ela ficou olhando para a espuma, tocando as bolhas com a ponta do dedo.

— É estranho, né? — disse.

— O quê? — perguntei, tirando seu pijama com cuidado pelas mangas.

— Tudo voltar a ser normal… depois de um tempo que não foi.

O gesto de dobrar o pijama parou no meio.

— É. — concordei, porque ela tinha razão e porque Sofia sempre teve um talento irritante para enfiar frases adultas entre perguntas infantis.

Usei a esponja devagar, passando pelo peito, pelos braços, pelas costas, tentando conferir mais leveza do que o mundo tinha dado pra ela nos últimos meses. Seus cabelos ainda não haviam crescido, e eu estava ansiosa para poder rever as madeixas vermelhas que eu tanto amava.

— Lena… você tá bem? — perguntou de repente.

A pergunta veio sem preparo. Aparentemente infantil, mas eu sabia o que existia por trás dela.

Engoli devagar, mas não queria mentir. Não depois de tudo.

— Agora eu tô. — respondi. — Porque você está aqui comigo.

Sofia acariciou os meus cabelos.

— Mas antes… você não tava?

Por um momento não sabia o que dizer. Minha mente foi inundada pelos últimos acontecimentos, as noites na UTI, o desespero quando os médicos me disseram que o tempo estava acabando, o leilão, Damian…

Fechei os olhos por um segundo, tentando formular uma resposta que ocultasse tudo o que aconteceu. E quando os abri, apenas respondi com o coração.

— Antes faltava você.

Ela assentiu, como se entendesse mais do que devia.

— Então agora vai ficar tudo bem.

Sorri e senti vontade de chorar ao mesmo tempo.

— Agora vai.

Depois do banho, envolvi Sofia na toalha macia, vesti a camisola com desenhos de estrelas e levei ela para a cama. Ela se deitou de lado, abrindo espaço para mim com a naturalidade de quem já tinha decidido que aquela noite pertenciam a nós duas.

Liguei a TV e juntas procuramos por filmes infantis. Sofia escolheu um daqueles que misturam magia, aventura e crianças que acreditam em coisas que adultos não sabem nomear.

Deitamos juntas, ela encaixada no meu braço, com o ursinho preso entre nós duas como mediador diplomático da situação.

— Lena… — murmurou, já com a voz mais baixa, indicando que ela lutava contra o sono. — Você acha que o moço alto bonito vai aparecer amanhã?

“Amanhã à tarde vou ficar com vocês. Quero roubar minha princesa por algumas horas. Comprei muitos presentes fofinhos. Se precisar de alguma coisa, me liga. Não importa a hora.”

Sorri. Era incrível como uma pessoa que eu tinha acabado de conhecer me fazia tão bem. Nunca tive muitas amigas quando era mais jovem. Talvez porque assumi responsabilidades demais para uma garota com apenas quinze anos e sempre dediquei toda a minha atenção a Sofia, mas agora, ter Beatrice ao meu lado, estava sendo incrível.

Continuei mexendo no celular e sorri ao ver a mensagem da minha madrinha:

“Graças a Deus! Minha menina está bem. Amo vocês duas e estou orgulhosa da mulher que você se tornou, Elena.”

Engoli sentindo um bolo se formar na minha garganta. Ela sempre dizia isso quando eu estava prestes a desabar. Era como se soubesse.

Deslizei a tela para cima e percebi algo que me deixou triste.

Nenhuma foto no ícone cinza. Nenhum nome ou notificação. Chegava a ser ridículo como um silêncio podia ter tanto som. Eu queria apenas uma mensagem naquela noite.

A dele.

Dizendo qualquer coisa. Dando uma ordem, um aviso, um comentário, um toque de controle mascarado de pragmatismo. Algo que confirmasse que ele havia se importado, ou pensado em mim.

Mas o local onde o número dele estava salvo, permanecia em branco. Nenhuma mensagem, nada.

Sofia se mexeu no meu braço, buscando calor, e eu a apertei mais um pouco. Ela dormia profundamente agora, com a respiração tranquila, o peso leve, e a coragem do tamanho da cama. Olhei para o teto, para o castelo iluminado no canto do quarto, para o reflexo do filme na parede, e por um instante senti saudade de algo que eu ainda não tinha tido.

Damian não era meu.

E mesmo assim, tudo em mim sentia falta dele.

Fechei os olhos devagar, ainda segurando o telefone na mão, como quem espera um milagre noturno que talvez não venha.

A última coisa que pensei antes de dormir foi no toque dele, como quem doma o mundo com o polegar e no absurdo de sentir falta de um homem que salva em silêncio e some na hora do resgate.

Adormeci com Sofia nos meus braços e Damian na minha mente. E, pela primeira vez em muito tempo, o medo não venceu o sono. O que venceu foi a saudade.

Ela dormiu pensando nele. Ele ficou acordado pensando nela.

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