“Alguns homens aparecem mesmo quando não chegam.”
Elena Rossi
O quarto parecia maior quando a porta finalmente se fechou atrás da última enfermeira. O silêncio tomou conta do quarto por apenas uns segundos. Por um instante eu pude ouvir o som da respiração de Sofia como quem reencontra uma música que quase esqueceu como se canta.
Ela estava sentada no meio do tapete azul-claro, com o ursinho “mel” entre os braços, olhando para o castelo iluminado como se tentasse memorizar cada lâmpada de estrela individualmente, como se um dia precisasse relatar tudo com exatidão.
— Lena… dá pra ficar acordada até mais tarde hoje? — perguntou, sem tirar os olhos do castelo.
Sorri ao me aproximar.
— Hoje pode. — respondi. — Hoje é um desses dias em que as regras não sabem onde dormir.
Ela riu, aquele riso que sempre trouxe luz, até nos dias mais sombrios da minha vida. Depois virou para mim e levantou os braços num pedido silencioso que eu conhecia antes mesmo dela nascer.
Peguei Sofia no colo com cuidado, sentindo o peso leve demais para carregar tanta coragem.
— Banho? — perguntei.
Ela assentiu, colocando o ursinho na cama como se o deixasse de guarda.
No banheiro, a água quente começou a encher a pequena banheira com o vapor delicado que subia até o espelho. Ela ficou olhando para a espuma, tocando as bolhas com a ponta do dedo.
— É estranho, né? — disse.
— O quê? — perguntei, tirando seu pijama com cuidado pelas mangas.
— Tudo voltar a ser normal… depois de um tempo que não foi.
O gesto de dobrar o pijama parou no meio.
— É. — concordei, porque ela tinha razão e porque Sofia sempre teve um talento irritante para enfiar frases adultas entre perguntas infantis.
Usei a esponja devagar, passando pelo peito, pelos braços, pelas costas, tentando conferir mais leveza do que o mundo tinha dado pra ela nos últimos meses. Seus cabelos ainda não haviam crescido, e eu estava ansiosa para poder rever as madeixas vermelhas que eu tanto amava.
— Lena… você tá bem? — perguntou de repente.
A pergunta veio sem preparo. Aparentemente infantil, mas eu sabia o que existia por trás dela.
Engoli devagar, mas não queria mentir. Não depois de tudo.
— Agora eu tô. — respondi. — Porque você está aqui comigo.
Sofia acariciou os meus cabelos.
— Mas antes… você não tava?
Por um momento não sabia o que dizer. Minha mente foi inundada pelos últimos acontecimentos, as noites na UTI, o desespero quando os médicos me disseram que o tempo estava acabando, o leilão, Damian…
Fechei os olhos por um segundo, tentando formular uma resposta que ocultasse tudo o que aconteceu. E quando os abri, apenas respondi com o coração.
— Antes faltava você.
Ela assentiu, como se entendesse mais do que devia.
— Então agora vai ficar tudo bem.
Sorri e senti vontade de chorar ao mesmo tempo.
— Agora vai.
Depois do banho, envolvi Sofia na toalha macia, vesti a camisola com desenhos de estrelas e levei ela para a cama. Ela se deitou de lado, abrindo espaço para mim com a naturalidade de quem já tinha decidido que aquela noite pertenciam a nós duas.
Liguei a TV e juntas procuramos por filmes infantis. Sofia escolheu um daqueles que misturam magia, aventura e crianças que acreditam em coisas que adultos não sabem nomear.
Deitamos juntas, ela encaixada no meu braço, com o ursinho preso entre nós duas como mediador diplomático da situação.
— Lena… — murmurou, já com a voz mais baixa, indicando que ela lutava contra o sono. — Você acha que o moço alto bonito vai aparecer amanhã?

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