“Homens como ele não amam. Decidem.”
A porta se fechou atrás de Alessandro com aquele clique seco que sempre precedia assuntos que ninguém queria nomear. Lá fora, o escritório seguia com o ruído abafado de teclas, passos rápidos e telefonemas que se encaixavam no ritmo da empresa, mas ali dentro, o som cessava. O escritório presidencial não era apenas uma sala, era um campo de batalha onde nada era sentimental e tudo era estratégia.
Alessandro segurava a pasta de couro com a ponta dos dedos, e caminhou até a mesa com o tipo de lentidão calculada que irritava homens impacientes. Damian desviou os olhos dos relatórios por dois segundos, apenas o suficiente para medir o cunhado, não como família, mas como alguém que traz problemas embalados em papel timbrado.
— Quer começar pelo corporativo ou pelo pessoal? — Alessandro perguntou, deixando a pergunta no meio-fio entre a provocação e a formalidade.
Damian entrelaçou os dedos sobre a mesa. Não era um gesto defensivo, era um lembrete de comando.
— Corporativo — respondeu. — Primeiro se elimina o que dá dinheiro. Depois o que dá dor de cabeça.
O canto da boca de Alessandro se moveu, mas não chegou a formar um sorriso. Entre os dois, sorrisos eram economia de guerra.
— Certo. — abriu a pasta. — Fusão com o grupo Romano confirmada, mas só se o teu conselho parar de tratar a operação como se estivesse casando com um inimigo.
— O conselho não casa. — Damian rebateu. — Ele negocia. E Romano não é inimigo, é imprevisível. O que é pior.
— E a imprensa? — Alessandro provocou.
— Um cão faminto que eu não alimento.
Aquilo encerrou a pauta.
— Próximo.
— Setor financeiro estabilizado. Resultados acima do previsto. Você vai anunciar agora ou guardar para o trimestre?
— Guardar. Informação cedo demais cria especulação. E especulação faz idiotas acharem que têm opinião.
Alessandro assentiu.
— Justo.
Fechou a pasta e ergueu os olhos com o peso de quem vai mudar a categoria da conversa.
— Agora a parte que te irrita.
Damian recostou na cadeira, não para relaxar, mas para impor uma hierarquia de quem decide de onde olha as coisas.
— Fala.
Alessandro respirou, o que já era suficiente para denunciar que a pauta não era financeira.
— É sobre ontem, no hospital.
Damian não respondeu. Não precisava. Seu olhar endureceu o suficiente para Alessandro entender que tinha atenção total.
— Você não faz ideia do que aquela criança fez quando viu o quarto decorado.
Damian não moveu o rosto, mas sua postura ficou tensa por um momento.
— Ela parou na porta. Ficou quieta por uns segundos, como se estivesse tentando decidir se podia entrar. Depois avançou devagar, e tocou tudo com a ponta dos dedos, como se tudo fosse um sonho.
O olhar de Damian desviou por meio segundo e Alessandro continuou, porque sabia exatamente onde atingir.
— Ela perguntou se podia mesmo ficar naquele quarto… e quando disseram que sim, sorriu. Mas não foi um sorriso de criança ganhando brinquedo. Foi daqueles que parece que o mundo devolveu alguma coisa que ela nem lembrava que tinha perdido.
Damian se acomodou melhor na cadeira, apenas para não perder nenhuma informação.

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