“O corpo guarda aquilo que a mente teme confessar.”
Elena Rossi
O San Michelle di Firenze nunca dormia. Na verdade, os hospitais nunca param, foram construídos para manter a vida em movimento enquanto o resto do mundo dormia. E naquela manhã, quando os passos das enfermeiras começaram a preencher o corredor, Sofia já estava desperta.
Eu não consegui dormir. Tudo parecia um sonho e temia que se fechasse os olhos, pudesse acordar novamente naquele pesadelo que nos acompanhou durante meses.
— Lena, você não dormiu? — perguntou, sentada com as pernas cruzadas no meio da cama, segurando o ursinho mel como se ele também quisesse saber.
Eu esfreguei o rosto, tentando ajustar a visão ao mundo que insistia em começar antes de mim.
— Que horas são?
— Sete e cinco! — ela respondeu com a empolgação de quem acaba de ganhar um presente.
— Isso é madrugada para os adultos.
— Madrugada é três e cinquenta e dois. — ela corrigiu com autoridade. — Eu perguntei ontem.
Suspirei fundo me sentando e puxei o corpo dela para um abraço.
— Claro que perguntou.
Ela sorriu, vitoriosa, e levantou o ursinho pela orelha.
— O Mel também acordou.
— Coitado do Mel — respondi, depositando um beijo em seu rosto e já me levantando da cama. — Ele não pediu para viver com uma criança teimosa.
— Eu não sou teimosa! — retrucou, levantando o queixo.
— Sofi…
— Sou persistente.
Eu não consegui evitar o riso.
O hospital era elegante demais para uma criança. Mas Sofia tinha um talento instintivo para comandar espaços que não foram feitos para ela. Damian tinha transformado o quarto num cenário de um filme de fantasia, mas Sofia conseguia incrementar ainda mais. A cama virou castelo. O carrinho de medicamentos virou restaurante imaginário. Os prontuários viraram cardápio. E os médicos, guardas reais.
— Lena… — ela me chamou.
— Hum?
— Hoje eu quero tomar banho cedo.
— Certo.
— Porque eu quero escolher minha roupa.
— Certo.
— E também quero café.
— E você acha que eu não ia dar café para você?
Ela segurou o queixo com um ar que só médicos, rainhas e crianças com câncer dominam.
— É melhor confirmar.
Foi quando Elena entendeu que aos poucos, Sofia voltava a vivenciar coisas de criança. A infância não tinha terminado. Ela só tinha sido interrompida por uma doença cruel, mas agora, de algum modo absurdo, estava tentando recomeçar.
Peguei a toalha, a camisola de estrelas e o shampoo que a Beatrice tinha trazido ontem.
No banheiro, a água quente encheu a banheira enquanto Sofia se apoiava nas bordas.
— Lena…
Eu já reconhecia aquele tom. Era o tom que precedia perguntas sérias demais para a idade.
— Hm?
— O Mel acha que a gente vai voltar para casa logo.
Eu engoli devagar.
— O que você acha?
Ela pensou. Mas não muito. Sofia nunca precisou de muito tempo para encontrar a verdade.
— Acho que sim. Porque tem muita gente cuidando da gente agora.
As palavras bateram no peito antes de atravessarem a razão.
Eu ajudei ela a entrar na banheira. O vapor subiu devagar, iluminado pela luz amarela que ela tinha exigido na noite anterior. Peguei a esponja e passei pelos braços finos, pelas costas miúdas, pelo corpinho pequeno e já com tantas cicatrizes
— E você? — Sofia perguntou, encostando o queixo na borda. — Tá bem?
A pergunta da noite anterior voltou. Com a mesma precisão. Crianças não repetem perguntas sem um propósito. E eu demorei mais do que deveria para responder.
— Eu tô.
— Não é isso que eu perguntei. — ela rebateu.
Respirei pelo nariz.
— Tô melhor.
Ela me avaliou com cuidado.
— Melhor porque eu tô bem?
— Sim. — admiti.
Ela mergulhou o Mel na água. O urso saiu completamente encharcado e com a dignidade comprometida.
— Então eu vou ficar bem todos os dias. — ela decidiu. — Aí você fica também. Isso é um acordo.
— Ok.
— E também assistir filme.
— Certo.
— E também quero que a tia Bia venha.
Eu levantei o olhar do café.
— Ela vem.
Sofia arregalou os olhos.
— Sério?
— Me mandou mensagem ontem à noite.
— Eu sabia que ela ia vir. — Sofia concluiu, com aquele tom de quem lê o futuro pelos detalhes do presente.
Terminei meu café e Sofia terminou o dela. E quando ela encostou a cabeça no meu ombro, senti a pele dela quente, mas não febril. Era uma temperatura que indicava que ela estava viva.
Fechei os olhos.
O corpo tem uma memória que a cabeça não tem. Ele sabe o que perdeu, o que tem medo de perder e o que não quer perder.
E naquele pequeno segundo, eu senti falta.
De quem? Eu não quis responder. Mas o nome dele veio mesmo assim.
Sofia levantou a cabeça.
— Você pensou em alguém. — ela afirmou.
Eu congelei.
— Como você sabe?
— Você ficou com essa cara.
— Que cara?
— A cara de quem sente saudade.
Meu coração acelerou inevitavelmente.
— E de quem eu sentiria saudade?
— Do moço alto bonito. — ela disse, como se fosse óbvio.
E eu não corrigi. Porque no fundo, era verdade. E verdades ditas por crianças têm o péssimo hábito de se tornarem destino.

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