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Leilão da Inocência: A Virgem Vendida Para o Bilionário romance Capítulo 89

“O castelo continua, mesmo quando mudam os quartos.”

Elena Rossi

Eu ouvi o salto de Beatrice antes de vê-la.

No corredor do San Michelle di Firenze, aquele som não combinava com o resto. Enfermeiras usavam tênis silenciosos, médicos deslizavam com sapatos de borracha, familiares caminhavam na ponta dos pés.

Beatrice não.

O salto dela marcava presença como se lembrasse ao hospital que a vida lá fora continuava acontecendo com pressa, beleza e perfume caro.

Ela surgiu na porta com o corpo apoiado de lado no batente, os óculos de sol empurrados para o topo da cabeça, lenço de seda caindo perfeito sobre o pescoço e um sorriso que ocupou o quarto inteiro.

— É aqui que está dormindo uma princesinha? — perguntou com um sorriso largo no rosto.

Sofia ergueu o rosto tão rápido que as orelhinhas da touca balançaram.

— TIA BIA! — gritou, como se tivesse esperado meses, não algumas horas.

Sempre que ela falava assim, meu coração oscilava entre gratidão e medo. Gratidão porque Sofia ainda conseguia gritar. Medo porque eu sabia o quanto o corpo dela tinha sido testado.

Beatrice deu dois passos para dentro, carregando duas sacolas em uma mão e uma pasta fina na outra.

— Devagar, princesa. — dramatizou, fingindo proteger a orelha. — Se você continuar gritando desse jeito, vou ter que pedir protetor auricular na recepção.

— Você gosta. — Sofia retrucou, cruzando os braços com a autoridade de quem tem quase dez anos e zero paciência para drama alheio.

— Gosto, sim. — Beatrice cedeu, rindo. — Finjo que não, mas adoro.

Ela se inclinou para a frente, depositando um beijo demorado na testa de Sofia. O olhar demorou um segundo a mais, avaliando cor, olheiras, vitalidade. A curadora de arte, acostumada a examinar pinturas, sempre avaliava pele e luz como se Sofia fosse sua obra mais importante.

Depois, veio até mim.

— Olá, sobrevivente. — murmurou, encostando os lábios na minha bochecha.

Senti o cheiro do perfume dela, familiar como casa em fim de tarde.

— Chegou cedo. — comentei.

— Acordei com uma mensagem da sua madrinha mandando foto de biscoito recém-saído do forno. — Ergueu uma das sacolas. — Entre a culpa e a manteiga, decidi trazer metade pra cá antes que eu resolvesse comer tudo sozinha.

Um canto da minha boca ameaçou subir.

— Sofia vai te canonizar.

— Canonização eu aceito. Velhice eu devolvo. — respondeu, colocando as sacolas sobre a poltrona.

Sofia se aproximou, curiosa, segurando o ursinho mel com uma mão.

— O que você trouxe? — perguntou, esticando o pescoço como se isso acelerasse o processo.

Beatrice ergueu um dedo.

— Primeiro: “Oi, tia Bia, como você está?”

Sofia revirou os olhos.

— Oi, tia Bia, você está linda, eu te amo, agora mostra.

Beatrice sorriu, satisfeita.

— Muito melhor.

Abriu a primeira sacola com um cuidado teatral, como se estivesse prestes a revelar uma obra rara em leilão.

— Temos aqui… — começou, tirando um a um — livros de atividades, lápis de cor com glitter, um caderno novo que implora por desenhos, três revistinhas que eu tenho que você ama, e…

Ela fez uma pausa dramática e Sofia inclinou o corpo para a frente.

— E um kit de aquarela.

Os olhos da minha irmã brilharam.

— Sério?

— Sério. — Beatrice confirmou. — Alta terapia emocional, segundo a minha opinião e zero artigos científicos.

Sofia pegou a caixa com as duas mãos, como se fosse frágil. A enfermeira que entrava no quarto naquele momento olhou por cima da bandeja.

— Isso tudo é permitido? — perguntou, com um sorriso.

— Absolutamente. — Beatrice respondeu antes que eu pudesse abrir a boca. — Aquarela é quase prescrição médica.

Sofia completou, muito séria:

— Aquarela é muito terapêutico.

Eu sorri, mas não foi um sorriso leve. Tinha peso, cansaço e admiração em excesso.

Lorenzo foi colocado na cama ao lado, o suporte de soro ajustado, o ursinho dele cuidadosamente reposicionado. Sofia deslizou na própria cama para chegar mais perto.

— Esse é o Mel. — apresentou, levantando o ursinho. — E esse é o…?

— Não tem nome. — respondeu Lorenzo.

— Como assim não tem nome? — ela pareceu pessoalmente ofendida. — Todo mundo que sobrevive a hospital ganha nome.

— Nunca pensei nisso. — ele admitiu.

Sofia o encarou por dois segundos, decidindo o destino de um urso e, provavelmente, o de um planeta.

— Vai se chamar Rocco. — decretou. — Nome de quem aguenta pancada.

Ele riu. O riso foi curto, mas verdadeiro.

Beatrice respirou fundo.

— Se você não chorar vendo isso, você é um monstro. — disse baixinho.

— Eu já chorei ontem. — respondi, mantendo os olhos nas crianças. — Hoje é dia de respirar.

— Respira feio, então. — ela retrucou. — Você está com uma cara…

Ficamos alguns minutos assistindo à interação. Sofia explicava o funcionamento das luzinhas do castelo, mostrava o kit de aquarela como se fosse um prêmio, dividia o biscoito da minha madrinha em partes milimetricamente iguais.

— Ela parece melhor. — Beatrice observou.

— Ela está melhor. — corrigi.

Desviei o olhar para o chão e ela me estudou por alguns segundos.

— E você?

Eu respirei fundo e sorri antes de responder:

— Eu estou…

Não terminei de falar porque a risada de Sofia com Lorenzo, ecoou como vida se infiltrando pelo hospital como tinta em água.

Às vezes respirar era só isso.

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