“O castelo continua, mesmo quando mudam os quartos.”
Elena Rossi
Eu ouvi o salto de Beatrice antes de vê-la.
No corredor do San Michelle di Firenze, aquele som não combinava com o resto. Enfermeiras usavam tênis silenciosos, médicos deslizavam com sapatos de borracha, familiares caminhavam na ponta dos pés.
Beatrice não.
O salto dela marcava presença como se lembrasse ao hospital que a vida lá fora continuava acontecendo com pressa, beleza e perfume caro.
Ela surgiu na porta com o corpo apoiado de lado no batente, os óculos de sol empurrados para o topo da cabeça, lenço de seda caindo perfeito sobre o pescoço e um sorriso que ocupou o quarto inteiro.
— É aqui que está dormindo uma princesinha? — perguntou com um sorriso largo no rosto.
Sofia ergueu o rosto tão rápido que as orelhinhas da touca balançaram.
— TIA BIA! — gritou, como se tivesse esperado meses, não algumas horas.
Sempre que ela falava assim, meu coração oscilava entre gratidão e medo. Gratidão porque Sofia ainda conseguia gritar. Medo porque eu sabia o quanto o corpo dela tinha sido testado.
Beatrice deu dois passos para dentro, carregando duas sacolas em uma mão e uma pasta fina na outra.
— Devagar, princesa. — dramatizou, fingindo proteger a orelha. — Se você continuar gritando desse jeito, vou ter que pedir protetor auricular na recepção.
— Você gosta. — Sofia retrucou, cruzando os braços com a autoridade de quem tem quase dez anos e zero paciência para drama alheio.
— Gosto, sim. — Beatrice cedeu, rindo. — Finjo que não, mas adoro.
Ela se inclinou para a frente, depositando um beijo demorado na testa de Sofia. O olhar demorou um segundo a mais, avaliando cor, olheiras, vitalidade. A curadora de arte, acostumada a examinar pinturas, sempre avaliava pele e luz como se Sofia fosse sua obra mais importante.
Depois, veio até mim.
— Olá, sobrevivente. — murmurou, encostando os lábios na minha bochecha.
Senti o cheiro do perfume dela, familiar como casa em fim de tarde.
— Chegou cedo. — comentei.
— Acordei com uma mensagem da sua madrinha mandando foto de biscoito recém-saído do forno. — Ergueu uma das sacolas. — Entre a culpa e a manteiga, decidi trazer metade pra cá antes que eu resolvesse comer tudo sozinha.
Um canto da minha boca ameaçou subir.
— Sofia vai te canonizar.
— Canonização eu aceito. Velhice eu devolvo. — respondeu, colocando as sacolas sobre a poltrona.
Sofia se aproximou, curiosa, segurando o ursinho mel com uma mão.
— O que você trouxe? — perguntou, esticando o pescoço como se isso acelerasse o processo.
Beatrice ergueu um dedo.
— Primeiro: “Oi, tia Bia, como você está?”
Sofia revirou os olhos.
— Oi, tia Bia, você está linda, eu te amo, agora mostra.
Beatrice sorriu, satisfeita.
— Muito melhor.
Abriu a primeira sacola com um cuidado teatral, como se estivesse prestes a revelar uma obra rara em leilão.
— Temos aqui… — começou, tirando um a um — livros de atividades, lápis de cor com glitter, um caderno novo que implora por desenhos, três revistinhas que eu tenho que você ama, e…
Ela fez uma pausa dramática e Sofia inclinou o corpo para a frente.
— E um kit de aquarela.
Os olhos da minha irmã brilharam.
— Sério?
— Sério. — Beatrice confirmou. — Alta terapia emocional, segundo a minha opinião e zero artigos científicos.
Sofia pegou a caixa com as duas mãos, como se fosse frágil. A enfermeira que entrava no quarto naquele momento olhou por cima da bandeja.
— Isso tudo é permitido? — perguntou, com um sorriso.
— Absolutamente. — Beatrice respondeu antes que eu pudesse abrir a boca. — Aquarela é quase prescrição médica.
Sofia completou, muito séria:
— Aquarela é muito terapêutico.


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