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Leilão da Inocência: A Virgem Vendida Para o Bilionário romance Capítulo 90

“Alguns homens dizem com gestos o que não sabem dizer com a voz.”

Pare. Não diga “bem”. Não finja pra ela.

— Cansada. — completei.

— Física ou emocional?

— As duas coisas. — admiti.

Ela assentiu, como quem já esperava.

— E você dormiu?

— Um pouco.

— Um pouco quanto?

— Três horas. — respondi, sem precisar contar. Meu corpo guardava o número com rancor.

Beatrice inclinou a cabeça, analisando minha expressão, meu tom, meu ombro tenso.

— Você ficou acordada ouvindo a respiração dela, não ficou?

Olhei para as próprias mãos. Sempre que fico desconfortável, mexo nos dedos. Passei o polegar sobre a marca clara do anel que não uso mais. O anel que pertenceu a minha mãe, e que tive que vender para pagar o tratamento de Sofia.

— Fiquei.

— Quantas vezes você já fez isso na vida?

— Desde que ela nasceu. — respondi. — Só mudou o cenário.

Beatrice sorriu de canto.

— Agora tem equipe médica, monitores, exames diários e uma porção de tecnologia te ajudando. — enumerou. — E ainda assim você não confia em nada além do próprio ouvido.

— Não é isso. — falei baixo. — É porque tenho medo de acordar e tudo isso não passar de um sonho.

Beatrice se levantou, foi até a janela e abriu um pouco mais a persiana. A luz quente iluminou o quarto tornando tudo ainda mais aquecido.

— Isso daria um quadro. — ela murmurou.

— Você transformaria em exposição, venderia por uma fortuna e depois fingiria que não chora no banho. — respondi.

Ela me lançou um olhar por cima do ombro.

— Não subestime meus banhos.

Voltou, pegou o pote de biscoitos na sacola e abriu a tampa. O cheiro de manteiga e açúcar preencheu o espaço, empurrando para o canto o cheiro de desinfetante.

Ela me ofereceu o pote.

— Pega.

— Não tô com fome.

— Não perguntei. — argumentou. — Pega.

Peguei um. Mordi, e a textura conhecida quase me desmontou. Lembrei da minha madrinha praguejando com a forma quente. Sofia lambendo o dedo com massa crua. Lembranças simples, que agora pareciam mais reais.

Beatrice não desviou os olhos de mim enquanto eu mastigava.

— E aí? — perguntou, como quem entra no assunto que estava guardado desde o começo.

— Aí o quê? — tentei ganhar tempo.

— Ele ligou?

— Damian se importa tanto que veste uma armadura pra ninguém perceber.

Ficamos em silêncio por um momento. Só o som das crianças preencheu o espaço.

— Você queria que ele ligasse? — ela perguntou, mais suave.

Eu não respondi de imediato.

Meu primeiro impulso foi dizer “não”. Dizer que eu não podia desejar isso, porque tudo não se tratava de um acordo, que eu não podia desejar aquilo que jamais seria meu. Mas algo dentro de mim não me deixa mentir.

— Queria. — admiti, sentindo a garganta apertar. — Mas eu não deveria me importar.

Ela inclinou a cabeça, como se arquivasse a informação em alguma gaveta interna.

— Então o problema não é ele não ter ligado. — concluiu. — É você achar que ele não pensou em você.

Eu abri a boca para retrucar, mas ela ergueu um dedo.

— Elena eu já te disse uma vez, que eu não sei o que prende vocês dois, e sinceramente isso não é importante. — ela segura minhas mãos e continua. — Mas uma coisa eu tenho certeza, você é especial para ele.

Respirei fundo, tentando controlar a vontade absurda de chorar.

— Então por que ele não ligou? — insisti.

Beatrice me encarou, um lado da boca levantado, mas os olhos seríssimos.

— Porque meu irmão tem um jeito diferente de dizer que sente saudades.

Se eu soubesse o que ele estava sentindo naquela manhã, talvez a saudade tivesse doído menos.

Mas eu não sabia. E ele não dizia.

Como é que se tenta não sentir falta de alguém que nunca foi seu?

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