“Alguns homens dizem com gestos o que não sabem dizer com a voz.”
Pare. Não diga “bem”. Não finja pra ela.
— Cansada. — completei.
— Física ou emocional?
— As duas coisas. — admiti.
Ela assentiu, como quem já esperava.
— E você dormiu?
— Um pouco.
— Um pouco quanto?
— Três horas. — respondi, sem precisar contar. Meu corpo guardava o número com rancor.
Beatrice inclinou a cabeça, analisando minha expressão, meu tom, meu ombro tenso.
— Você ficou acordada ouvindo a respiração dela, não ficou?
Olhei para as próprias mãos. Sempre que fico desconfortável, mexo nos dedos. Passei o polegar sobre a marca clara do anel que não uso mais. O anel que pertenceu a minha mãe, e que tive que vender para pagar o tratamento de Sofia.
— Fiquei.
— Quantas vezes você já fez isso na vida?
— Desde que ela nasceu. — respondi. — Só mudou o cenário.
Beatrice sorriu de canto.
— Agora tem equipe médica, monitores, exames diários e uma porção de tecnologia te ajudando. — enumerou. — E ainda assim você não confia em nada além do próprio ouvido.
— Não é isso. — falei baixo. — É porque tenho medo de acordar e tudo isso não passar de um sonho.
Beatrice se levantou, foi até a janela e abriu um pouco mais a persiana. A luz quente iluminou o quarto tornando tudo ainda mais aquecido.
— Isso daria um quadro. — ela murmurou.
— Você transformaria em exposição, venderia por uma fortuna e depois fingiria que não chora no banho. — respondi.
Ela me lançou um olhar por cima do ombro.
— Não subestime meus banhos.
Voltou, pegou o pote de biscoitos na sacola e abriu a tampa. O cheiro de manteiga e açúcar preencheu o espaço, empurrando para o canto o cheiro de desinfetante.
Ela me ofereceu o pote.
— Pega.
— Não tô com fome.
— Não perguntei. — argumentou. — Pega.
Peguei um. Mordi, e a textura conhecida quase me desmontou. Lembrei da minha madrinha praguejando com a forma quente. Sofia lambendo o dedo com massa crua. Lembranças simples, que agora pareciam mais reais.
Beatrice não desviou os olhos de mim enquanto eu mastigava.
— E aí? — perguntou, como quem entra no assunto que estava guardado desde o começo.
— Aí o quê? — tentei ganhar tempo.
— Ele ligou?


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