“A forma mais silenciosa de amar é supervisionar.”
Dois dias se passaram do jeito que passam para homens que trabalham muito e sentem mais do que admitem: devagar na rotina, rápido na cabeça.
As horas se arrastavam no relógio, mas a mente de Damian não obedecia aos ponteiros. O planejamento vinha primeiro, sempre, porque era o único território em que sabia controlar. Sentimentos, ele empurrava para os intervalos e, ainda assim, eles insistiam em invadir o expediente.
Durante esses dois dias, mesmo sem falar diretamente com Elena, se certificou de que ela estivesse sendo bem cuidada e que nada lhe faltasse. Não era o tipo de homem que perguntava “como você está?”, era o tipo de homem que ligava para quem tinha obrigação de saber.
Todas as manhãs, o telefone tocava no San Michele di Firenze.
— Doutora, aqui é Damian Cavallari.
— Sim, senhor Cavallari — a voz do médica vinha com aquele respeito atento de quem sabe quem paga a conta. — A Sofia teve uma noite estável.
— Me envie o laudo completo por e-mail em dez minutos. — cortou, seco. — Hoje à noite ligo de novo.
E à noite, ligava de novo.
— Alguma mudança?
— Nada significativo, senhor Cavallari.
— “Nada significativo” é coisa demais ou de menos para uma criança. Especifique.
Não havia delicadeza, mas havia constância. Elena não via, Sofia não entendia, mas a mão que segurava boa parte das linhas que impediam o caos de engolir tudo, era a dele.
No tempo livre, Damian se enterrava em trabalho: reuniões, conselhos, relatórios, planilhas, números. A quantidade de informação que lidava diariamente seria suficiente para enlouquecer qualquer um, mas para ele, era só mais um dia funcional.
O que atrapalhava era o resto. O quarto dela, seu perfume, o corpo adormecido em seus braços. Isso, sim, era desestabilizador.
Na segunda noite, decidiu sair.
Não porque precisasse de gente. Precisava de barulho, um garçom que o entendesse sem muitas frases, copo cheio e música baixa. O pub era um desses lugares. Não era cenário para romances, dramas ou epifanias. Era um refúgio discreto, frequentado por homens ricos e poderosos que aprenderam cedo a não falar demais. Era o tipo de ambiente onde se bebia, não se confidenciava.
Damian entrou como quem não disputa território, ocupa. O ar pareceu se ajustar ao redor dele. O garçom o reconheceu antes mesmo de chegar ao balcão, não era a sua primeira vez no local, nem seria a última.
— Boa noite, senhor Cavallari. — cumprimentou, inclinando a cabeça.
Damian apenas respondeu com um olhar breve e um aceno mínimo. Não era homem de desperdiçar palavras com o óbvio. O gesto foi suficiente para comunicar duas coisas: bebida e discrição.
Escolheu uma mesa de canto. Gostava de sentar de uma maneira que pudesse observar tudo ao seu redor.
Tirou o paletó com um movimento impaciente, colocando a peça ao encosto da cadeira, soltou o colarinho, afrouxou a gravata com os dedos longos e respirou fundo, como quem tenta reduzir o mundo ao que cabe num copo.
O garçom se aproximou trazendo o uísque, uma dose dupla e sem gelo, como sempre.
— Como de costume — disse o funcionário.
Damian apenas assentiu, pegando o copo.
Pegou o copo, girando o copo e observando o líquido âmbar no fundo. O jazz suave no fundo preenchia o silêncio com acordes antigos, daqueles que pedem respeito e espaço. Era o tipo de música que não invadia, mas se impunha, e foi nessa fenda silenciosa que a memória resolveu trabalhar.
Elena veio inteira.
A maciez absurda da pele, o calor do corpo encaixado no dele, aquele perfume floral infiltrado nos cabelos ruivos, como se tivesse sido criado para ser sentido de perto, no exato ponto em que pescoço e ombro se encontravam. E a forma como ela adormeceu nos braços dele, inteira, entregue e sem saber o efeito que causava.
O maxilar de Damian contraiu. O corpo reagiu de imediato, porque o corpo sempre reage antes da lógica. Sentiu o sangue esquentar, aquela tensão baixa se instalar nas pernas, nas mãos e no centro do peito. Não era um adolescente, mas o corpo não sabia a idade da mente.
Ele odiava isso. Odiava a ideia de que o desejo pudesse ditar alguma coisa.



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