“Ninguém teme o que deseja. Exceto quando sabe que deseja a exceção.”
Ele finalmente a encarou por um pouco mais de tempo. A irritação com a própria memória, com o próprio corpo e com Elena misturou tudo.
— Hoje? — perguntou, devolvendo a provocação. — Hoje eu quero algo simples.
Ela passou a ponta da língua pelos lábios, um gesto rápido que não foi acidental.
— Simples como o quê?
— Como beber em silêncio. — respondeu, e tomou outro gole.
O sorriso dela vacilou por meio segundo, logo retomando a forma.
— Você trabalha com o quê? — não desistiu, mudando de campo.
— Negócios. — respondeu.
— Negócios do quê? — insistiu, inclinando-se um pouco mais.
Ele respirou fundo, o ar inflando o peito sob a camisa social.
— Dos que não cabem em respostas curtas. — cortou, com uma ponta de ironia.
Ela riu, e dessa vez inclinou o rosto para o lado, estudando-o.
— E está sozinho porque…? — a pergunta veio com uma ponta de curiosidade real.
Damian pousou o copo, apoiando os dedos fortes no cristal.
— Porque escolhi. — respondeu. — É o jeito mais eficiente de estar.
A morena abaixou os olhos por um instante, como quem registra a informação e reposiciona o jogo. Aquilo ali não era um homem em busca de distração fácil. Era o tipo de homem que já decidiu como funcionava e não parecia interessado em mudar.
— Você tem alguém? — perguntou, sem rodeios, voltando a encará-lo.
O mundo em volta pareceu dar um passo para trás. As conversas, o barulho, o jazz, tudo ficou um pouco mais distante.
Damian ergueu o olhar e o copo parou no meio do trajeto até a boca.
A imagem de Elena surgiu com violência. Ela dormindo ao seu lado, a respiração calma, os cabelos espalhados no travesseiro dele. Lembrou dos beijos, da forma como ela tremeu na sua boca, da maneira como o corpo dela respondeu antes que a mente tivesse tempo de pensar. E lembrou de algo ainda mais perigoso: a sensação absurda de que dividir espaço com ela era mais íntimo do que sexo com qualquer outra pessoa poderia ser.
O maxilar travou de novo.
— Tenho alguém na cabeça. — respondeu, por fim. — O que é pior do que ter alguém.
Ela arqueou a sobrancelha, surpresa genuína.
— Pior? — repetiu. — Por quê?
Ele girou o copo mais uma vez, sem beber.
— Porque quando é só corpo, você resolve. — explicou, a voz baixa, firme. — Quando é cabeça, você não manda. E eu detesto quando algo em mim ignora ordens.
Houve um silêncio curto entre eles. O tipo de silêncio em que a mulher entende que o problema não é ela, é outra.


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