“O que irrita é sempre o que importa.”
Elena Rossi
A cena na cama veio inteira, sem pedir permissão, sem aviso e sem pudor.
A noite em que ele dormiu no meu quarto. O peso do corpo grande no colchão, o perfume amadeirado que se infiltrou no travesseiro como se tivesse a intenção de permanecer, a respiração quente que roçava a minha nuca, e aquele toque firme na cintura, não de quem toma, mas de quem segura. Segurar é mais íntimo do que tomar, e eu só entendi isso depois.
Fechei os olhos por um instante.
O corpo reagiu antes da moralidade se pronunciar. Sempre é assim: o corpo não espera autorização. Um aperto quente no estômago, um arrepio subindo pela coluna, um calor surgindo no meio das pernas que me fez morder o lábio antes de lembrar que estava num hospital e que nada ali combinava com esse tipo de lembrança.
Meu corpo ainda queria o toque dele.
Meu corpo não tinha vergonha de admitir. Minha cabeça, sim. Minha cabeça sempre quer ser racional, estratégica, madura… e falha miseravelmente quando ele está envolvido.
— Para. — sussurrei para mim mesma, como quem tenta colocar uma coleira no próprio pensamento.
Ridículo sentir falta de alguém assim, principalmente enquanto se vigia o sono de uma criança doente. Mas sentir é a única ação que não obedece estratégia nenhuma. E eu, infelizmente, fui criada para acreditar que tudo poderia ser planejado se o suficiente fosse controlado.
Peguei o celular.
A tela iluminou meu rosto com crueldade. Nada de novo. Nenhuma notificação. Só a última conversa com ele, uma mensagem minha, curta, prática, quase clínica e o visto dele logo abaixo. Visualizado. Nada foi respondido. Nenhum adendo, nenhum “depois conversamos”, nenhum “como ela está?”.
— Deus, eu estou perdida. — murmurei, sem nenhuma intenção de dramatizar. Não era drama, era constatação.
Durante esses dois dias de silêncio, cogitei telefonar. Não por necessidade, mas por covardia. Porque ouvir a voz dele seria admitir a falta que fazia. E porque eu não teria o que dizer.
No fim, não liguei.
Deitei mais perto de Sofia, como se o calor dela fosse capaz de domesticar os pensamentos. Deixei o celular na mesa ao lado,com a tela virada para baixo, como se isso pudesse impedir o mundo de me cobrar alguma coisa.
Sofia mexeu na cama. Murmurou algo indecifrável e eu inclinei o corpo na direção dela.
— Ei… — ajeitei o lençol. — Tá tudo bem.
Ela abriu um olho. Um só. O suficiente para existir.
— Lena…
— Tô aqui.
— Você não dorme nunca?
Eu sorri de canto.
— Às vezes.
Ela pensou. Criança pensa com o corpo antes de dizer sempre alguma coisa.

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