“Às vezes, amar é apenas ajustar detalhes que ninguém vê.”
Damian acordou com a luz entrando pela fresta da cortina do quarto dela.
Demorou três segundos para localizar o próprio corpo no espaço. Teve a estranha sensação de que alguém o observava, mas quando virou o rosto, não havia ninguém.
Só o travesseiro dela.
Elena não dormia ali há dias, mas o quarto ainda cheirava a ela. Shampoo floral misturado com perfume demasiado discreto, um traço de hidratante de pele e algo que era exclusivamente dela, impossível de rotular.
Ele levou a mão ao rosto, sentindo a leve pressão de uma dor de cabeça que não chegava a ser ressaca, mas também não era normal. Uísque o suficiente para lembrar, pouco o suficiente para não apagar.
— Brilhante, Cavalari. — sussurrou irritado. — Grande estratégia.
Sentou-se na beira da cama. Os pés tocaram o chão com firmeza, era um reflexo de quem nunca se permitiu ficar tonto em lugar nenhum. Mesmo sozinho.
Passou os dedos pelos cabelos, respirou fundo uma, duas vezes, e só então se levantou.
No corredor, a casa parecia mais silenciosa que o normal. Talvez porque ele estivesse ouvindo, ou porque, porque nos últimos meses, tinha se acostumado a ouvir logo cedo, as conversas entre Elena e os empregados. Ficou irritado por constatar que ela não estava ali.
Entrou no próprio quarto, tirou a roupa, ligou o chuveiro. A água caiu quente nas costas, escorrendo pela nuca, pelos ombros, levando embora os resíduos de bebida e cansaço, mas não conseguia apagar seus pensamentos.
Elena encostada na parede do banheiro de olhos fechados. A forma que o seu corpo se curvava ao seu toque, o sabor do seu prazer em sua boca.
Ele fechou os olhos, irritado com a própria memória visual.
Não podia se dar a esse luxo. Não com a quantidade de coisas que equilibrava nas mãos. Um império, um hospital, uma criança que não era sua e uma mulher que não sabia onde encaixar.
Saiu do banho, se enxugou, vestiu a camisa branca, e terminou de se arrumar com
movimentos mecânicos. Colocou o paletó, ajeitou o relógio no pulso. No espelho, o homem que encarou de volta tinha a mesma expressão de sempre: firme, controlada, ilegível.
Só o olhar estava diferente.
Mais fundo. cansado e humano.
Desceu as escadas em direção a sala de jantar.
Teresa estava na cozinha, coordenando empregadas como se fosse comandante de guerra. Quando o viu, demorou um segundo a mais para responder ao “bom dia”. Não porque não tivesse educação, mas porque notou o detalhe.
Ele vinha do corredor dos quartos. Do corredor errado, e parecia… pensativo.
— Bom dia, senhor Cavalari. — disse, finalmente.
Ele apenas assentiu.
Sentou-se na própria cadeira, puxou o celular para perto e, por um instante, encarou a tela como se ela fosse mais perigosa do que as fusões que precisava fechar na manhã.
Respirou fundo. Tocou o nome errado na agenda — ou o certo, dependendo do ponto de vista.
Floricultura Santa Giulia, Firenze


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