“Quando o cuidado é real, ele não pede permissão para virar poder.”
— A polícia foi acionada e não fez nada?
— Nem um aviso. Achei um absurdo, mas enfim… — Beatrice suspirou como quem já estava acostumada com a incompetência do mundo. — Só te liguei porque não vou conseguir ir hoje. Tenho dois compromissos e, se eu não for, perco metade da agenda de março. Você vai passar lá depois?
Damian olhou para o relógio, não para medir o tempo, mas para organizar a própria reação. Esse era o tipo de pergunta que não se responde com emoção.
— Vou ver.
— Isso é o mais perto que você chega de dizer “sim”, então vou aceitar. — riu. — Tchau, Damian.
Ela desligou antes que ele pudesse responder. Beatrice sempre soube que Damian nunca fazia nada sob pressão.
Três segundos depois, o dedo dele já estava ligando para Alessandro. Não houve reflexão. Houve decisão.
O advogado atendeu na primeira vibração.
— Bom dia, Damian, a reuniã…
— Compre o restaurante ao lado do San Michele di Firenze. — interrompeu, já calculando o raio de alcance da operação.
Houve um silêncio que não era hesitação, era logística mental.
— Comprar? Como assim comprar? Damian, esses estabelecimentos têm acionistas, contratos, permissões de zoneamento, licen…
— Alessandro. — O tom mudou meio grau, o suficiente para colocar tudo no eixo. — Faça o que eu ordenei.
O advogado respirou fundo, como quem acabava de lembrar que ordem e explicação não pertenciam ao mesmo campo semântico quando o assunto era Damian Cavallari. Lembrou da namorada falando sobre um acontecimento no hospital e imaginou, com razoável precisão, a origem do pedido.
— Certo. Posso iniciar negociações ainda hoje, mas preciso saber a finalidade. Expulsar estudantes não entra como justificativa legal para…
— A partir do momento em que eu for o dono, não haverá estudantes, nem música, nem barulho. E garanta que, quando o hospital solicitar intervenção policial, a polícia faça o trabalho corretamente. Caso contrário, eu mesmo vou conversar com o delegado-geral.
Por um segundo inteiro, nenhuma das duas respirou pelo telefone. Depois:
— Entendido.
— Mande relatório no fim do dia. — finalizou.
Desligou e ficou quieto. Pensar, para Damian, nunca foi um processo barulhento.
Teresa o observava de longe, fingindo reorganizar uma travessa que não precisava de ajuste. Mulheres inteligentes sempre sabiam ler silêncio antes de palavras.
— Ela está bem. — ele informou, sem levantar os olhos.
— Eu sei. — Teresa respondeu sem conseguir se conter. — O tom de sua voz muda quando a notícia é ruim.
Ele levantou a sobrancelha, meio irritado, meio exposto.
— Está analisando o tom da minha voz, agora?
A governanta arregalou os olhos, percebendo que tinha ultrapassado um limite invisível.
— De-desculpe, senhor Cavallari, eu não quis ser…
Mas se calou ao ver o sorriso discreto surgir nos lábios do garoto que viu crescer. E que, naquele momento, continha mais do que gostaria.
Damian tomou o resto do café de uma vez, levantou, pegou o paletó.
— Volto tarde.
— Senhor Cavallari — era a secretária outra vez, desta vez com a voz medida — chegou uma confirmação do San Michele di Firenze. Pedido entregue com sucesso. A senhorita Rossi recebeu há exatos nove minutos.
Ele fechou os olhos por um segundo.
Nove minutos.
O suficiente para mudar um dia inteiro.
— Mais alguma coisa? — perguntou.
— Sim, senhor. — a secretária hesitou, algo raro. — Informaram que ela… sorriu.
Por um breve momento, o silêncio surgiu.
Damian virou de costas para a cidade, como se o vidro já não fosse suficiente para esconder o que não era da conta de ninguém.
— Então é tudo por enquanto. — disse, retomando o tom certo.
Mas quando a ligação encerrou, ele não voltou para a mesa. Se limitou a observar o próprio reflexo no vidro.
Ele sabia que flores não resolvem doenças.
Que poder não cura ninguém.
Que estratégia não salva o que o coração insiste em guardar.
Mas também sabia de outra coisa e dessa ninguém precisava ser avisado:
Quando Damian decide intervir, o mundo raramente tem escolha.

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