“Há lugares onde o poder não entra primeiro.
Quem entra é o cuidado.”
Damian entrou no quarto com a atenção silenciosa de quem sabe que certos espaços não se dominam, apenas se respeitam, e não havia ali qualquer receio ou insegurança, mas uma consciência rara de que aquele território não funcionava pelas regras que ele passou a vida inteira impondo.
O ambiente estava longe de tudo o que ele conhecia como poder: não havia mesas longas, telas luminosas ou contratos invisíveis pairando no ar, apenas o cheiro suave das flores recém-colocadas, desenhos infantis colados na parede com fita colorida, um ursinho grande demais para aquela cama e uma menina de olhos atentos que o observava com a seriedade de quem decide, em silêncio, se alguém merece ou não atravessar aquela porta.
Sophia foi a primeira a falar, sem cerimônia, sem medo e sem qualquer intenção de suavizar a verdade.
— Você demorou.
A constatação não carregava mágoa nem cobrança, apenas a naturalidade de quem diz algo óbvio demais para ser discutido. Damian parou no meio do quarto, como se aquela frase tivesse peso físico, e arqueou levemente a sobrancelha, mais curioso do que defensivo.
— Demorei? — perguntou, com um meio sorriso contido.
Sophia assentiu, séria, abraçando o ursinho contra o peito.
— Uhum. Mas tudo bem. Às vezes as pessoas demoram porque estão ocupadas… ou com medo. A Lena diz isso.
Elena arregalou os olhos no mesmo instante, o corpo reagindo antes da mente.
— Sophia…
Damian conteve o sorriso que ameaçava escapar e se aproximou da cama com cuidado, diminuindo o próprio tamanho, como quem não quer assustar algo precioso.
— Eu não sou o tipo de homem que tem medo. — afirmou, mantendo o tom leve.
Ainda assim, a pergunta ficou. Não como dúvida, mas como algo recém-encostado em um lugar que ele raramente permitia ser tocado.
Sophia pensou por alguns segundos, encostando o queixo no topo da cabeça do ursinho.
— Mas você não tem medo nem de fantasma?. — fez uma pausa curta, avaliativa. —
Elena levou a mão à boca, dividida entre o choque e a vontade de rir. Damian soltou uma risada baixa, inesperada até para ele.
— Acho que essa análise está perigosamente correta.
Sophia sorriu, satisfeita com o próprio diagnóstico, e se inclinou um pouco para frente.
— Sabe… a Lena estava triste.
Elena se mexeu, tensa demais para disfarçar.
— Sofi, não precisa…
— Estava sim. — insistiu a menina, virando-se para a irmã. — Mas ficou feliz de novo quando as flores chegaram. Muito feliz.
O silêncio tomou conta do quarto, pesado o suficiente para ser sentido. Elena tentou dizer alguma coisa, mas a voz não saiu.
— E-eu… isso não… Sophia, você não…
O sorriso congelou, a postura mudou, e ela deu um pequeno passo para trás.
— Se-senhor Cavallari… eu não sabia que…
Damian cruzou os braços a encarando atentamente.
— Está tudo bem?
A médica respirou fundo, olhou Elena, depois Sophia e, por fim, Damian, recuperando o sorriso profissional.
— Os últimos exames foram satisfatórios. Acredito que amanhã poderemos liberar essa garotinha.
— Liberar? — Sophia repetiu, com a testa franzida, como se a palavra tivesse caído no quarto sem pedir licença.
A Dra. Patrícia sorriu, inclinando levemente a cabeça.
— Sim, querida. Ir para casa.
O efeito foi imediato e completamente oposto ao esperado.
Sophia apertou o ursinho contra o peito, o corpo se projetando para frente, e antes que qualquer adulto pudesse antecipar a reação, ela deslizou da cama e abraçou as pernas de Elena, que se abaixou de imediato, envolvendo o corpo pequeno da irmã em seus braços.
— Não! — disse, com a voz abafada contra o ombro dela. — Eu não quero ir pra casa.

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