POV: Chiara
Alguns meses se passaram voando desde aquela tarde na confeitaria com a Giulia, e a vida continuou o seu rumo de forma intensa e bonita. Hoje, bem cedinho, eu me peguei de pé, parada exatamente de frente para o espelho do closet, vestindo apenas um conjunto de lingerie de renda preta. Meus olhos ignoraram todo o resto ao meu redor — as fileiras de sapatos, as bolsas de grife, os vestidos alinhados — e se fixaram diretamente na minha silhueta refletida no vidro. Levei as duas mãos à pele quente e toquei o meu ventre com uma delicadeza quase sagrada, fechando os olhos por alguns segundos e me permitindo imaginar se finalmente há um bebê crescendo ali dentro, protegido e nutrido pelo meu próprio corpo.
Eu tenho uma esperança genuína e ardente de que sim. Afinal, já faz alguns meses que eu tomei a decisão de parar completamente com o anticoncepcional e decidi tentar engravidar, deixando que a natureza fizesse o seu papel no tempo certo. E agora, pela primeira vez de forma tão contundente, as pistas físicas começaram a aparecer de verdade: a minha menstruação está atrasada há mais de duas semanas e, nos últimos dias, venho sentindo alguns enjoos matinais estranhos, daquele tipo incômodo que faz o estômago revirar do nada, rejeitando até mesmo o cheiro do café fresco que eu tanto amo. Enquanto aliso a minha barriga, ainda firme e sem alterações visíveis, um sorriso involuntário e bobo surge nos meus lábios. Fico parada ali, pensando, imaginando a nossa vida com uma criança correndo pelos corredores silenciosos da mansão, trazendo luz para este lugar. Um filho nosso agora seria uma bênção absoluta, o fechamento perfeito para esse ciclo que estamos vivendo juntos.
Termino de me arrumar com uma pressa que antes eu simplesmente não tinha. Visto um vestido confortável para o trabalho, pego a minha bolsa de couro e, enquanto calço os sapatos, decido o meu itinerário mental. Eu sabia muito bem que não conseguiria focar em nenhum relatório da administração ou fluxo de caixa hoje sem antes tirar essa dúvida cruel da minha cabeça de uma vez por todas. Antes de ir direto para a Clínica Esperança, vou pedir para o motorista fazer uma parada rápida em uma farmácia bem distante do nosso circuito habitual, e irei comprar um teste de gravidez. O melhor e mais confiável que tiver disponível na prateleira.
Mais tarde, o relógio na parede da minha sala na clínica marcava pouco mais de dez horas da manhã quando eu finalmente encontrei um momento de total privacidade em meio as inúmeras reuniões. Tranquei a porta da minha sala de administração, respirei fundo para tentar acalmar os batimentos do meu peito e caminhei em direção ao banheiro privativo, segurando a sacola de plástico discreta que continha a caixinha.
Minhas mãos tremiam de leve, uma mistura pura de ansiedade, medo do negativo e uma expectativa gigante, enquanto eu seguia as instruções impressas no papel. Deixei o pequeno bastão de plástico sobre a bancada de mármore branca e me forcei a andar de um lado para o outro no espaço fechado do banheiro, contando os minutos no visor do celular. Parecia que o tempo tinha decidido parar de correr apenas para testar os meus nervos.
Quando os cinco minutos finalmente se esgotaram, aproximei-me da pia com o coração batendo tão forte que eu conseguia ouvir o pulsar acelerado diretamente nos meus ouvidos. Segurei o teste com a ponta dos dedos, respirei fundo e olhei.
Duas listras vermelhas, perfeitamente nítidas, fortes e paralelas. Positivo.
Uma onda avassaladora de felicidade, alívio e um choque elétrico de pura realidade atingiu o meu peito de uma vez só. Levei a mão livre à boca para abafar um suspiro alto de surpresa, enquanto as primeiras lágrimas, quentes, densas e teimosas, começaram a inundar os meus olhos verdes e a escorrer pelas minhas bochechas. Eu realmente estava grávida. Havia uma vida real ali dentro, um pedacinho meu e de Massimo começando a se formar silenciosamente. Olhei para o espelho do banheiro e vi o meu próprio reflexo chorando e sorrindo ao mesmo tempo, em um estado de pura graça e plenitude que eu nunca tinha experimentado antes em toda a minha existência.
Assim que consegui recuperar um pouco do fôlego, lavei o rosto com água fria e limpei a maquiagem borrada, a minha mente começou a rodar em alta velocidade, traçando planos. Eu precisava contar para alguém, a vontade imediata era gritar para o mundo inteiro ouvir, mas recuei no mesmo segundo, voltando à razão. Tomei uma decisão firme: ninguém vai saber da minha gravidez antes de Massimo Capone. Nem mesmo a Giulia, que é a minha melhor amiga e minha confidente para todas as horas. Esse momento de descoberta pertencia ao meu marido antes de qualquer outra pessoa na terra; ele merecia receber essa honra e esse presente diretamente de mim, sem intermediários.

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