POV: Chiara
Como filha de uma família de classe média, eu aprendi cedo que o valor de uma pessoa não está no que ela ostenta, mas na força do seu trabalho. Meus pais foram aquele tipo de casal de cinema: apaixonaram-se jovens, intensos e cheios de planos. Minha mãe engravidou de mim ainda adolescente, um susto que eles transformaram em esperança. Mas a vida pode ser cruel em sua brevidade. Ela teve complicações graves no parto e partiu logo depois que eu dei meu primeiro suspiro.
Cresci vendo meu pai, Marco, dobrar turnos e sacrificar noites de sono para garantir que nunca faltasse comida na mesa ou amor dentro de casa. Ele superou o luto e as dificuldades financeiras, dando-me uma vida digna. Hoje, aos 26 anos, o jogo virou. É a minha vez de ser o pilar. Meu pai está muito doente, e a necessidade de pagar o tratamento e manter nossa casa me trouxe ao meu emprego atual: secretária administrativa em uma das maiores empresas de tecnologia de Milão. Sou dedicada, focada e chego a ser metódica. Eu preciso desse emprego tanto quanto preciso de ar.
O cheiro de café fresco preenchia a pequena cafeteria, misturado ao som suave de risadas matinais e o tilintar de porcelana. Era um ambiente simples, aconchegante e, acima de tudo, seguro. Eu gostava do que era normal. O luxo exagerado sempre me pareceu um palco para pessoas vazias.
— Você vai se atrasar de novo — Giulia disse, apoiando o queixo na mão enquanto me observava morder um pedaço do meu croissant.
— Eu só me atrasei uma vez na vida, Giulia. Eu sou a definição de pontualidade — respondi com um sorriso leve, tentando disfarçar as olheiras que a maquiagem não conseguia esconder totalmente. — Faz parte da minha personalidade ser organizada.
Giulia revirou os olhos, soltando uma risadinha debochada.
— Isso não é personalidade, Chiara. Isso é um milagre de desorganização que você tenta esconder.
— Ei! Eu só me atrasei aquela vez. Ainda bem que você não é meu chefe, senão eu estaria frita.
Ri. Foi um riso verdadeiro, livre, um dos poucos momentos de leveza que eu me permitia ter ultimamente. Mas o peso no meu peito voltou logo em seguida.
— Só estou cansada, sabe? Passei a noite no hospital com meu pai. Dormi muito pouco naquelas poltronas desconfortáveis, por isso quase perdi o horário hoje — falei, dando um gole longo na xícara de café, esperando que a cafeína fizesse algum milagre nas minhas sinapses.
— Eu imagino, amiga. Já tem previsão de alta? — O tom dela suavizou, cheio de preocupação real.
— O médico disse que, se os exames continuarem estáveis, em uma semana ele pode voltar para casa. Estou pedindo a Deus que isso aconteça logo. A rotina de trabalho e hospital é difícil. Estou exausta.
— Você deveria sair mais — Giulia continuou, mudando de assunto para tentar me animar. — Conhecer alguém, viver um pouco além dessas paredes de hospital e escritório...
Massimo.
Eu nunca tinha chegado a falar com ele diretamente quando ele veio ao escritório meses atrás. Eu era apenas a secretária ao fundo da sala. Mas eu ouvi sua voz. Uma voz tão profunda e rica que, mesmo agora, ela ecoava na minha cabeça como uma carícia proibida. Naquele dia, o som da voz dele pareceu perfurar o barulho ambiente e causar um aperto estranho no meu estômago.
A única coisa que eu sabia sobre ele, além do seu primeiro nome, era que ele era dono de uma parte significativa da empresa e que vinha ocasionalmente para analisar números e tendências.
Fiquei estática. Minhas mãos pairaram sobre o teclado, congeladas no meio de uma frase. Meus olhos pareciam imensos enquanto eu observava, através do vidro, a porta do motorista se abrir.
Ele saiu do carro. Todos os seus membros eram longos, fortes e estavam cobertos por um terno escuro que parecia ter sido costurado sobre seu corpo. Ele era absurdamente alto, muito além de um metro e noventa. O sol batia em seu cabelo, fazendo-o brilhar enquanto ele fechava a porta com um movimento firme. Ele usava óculos escuros, escondendo os olhos, mas não conseguia esconder a aura de autoridade absoluta que o cercava. Ele não andava; ele dominava o espaço.
De onde eu estava, vi quando ele entrou no saguão e encontrou Orion, o supervisor da unidade. Orion, que geralmente era um homem arrogante com todos nós, parecia subitamente ansioso, quase pequeno ao lado de Massimo. Eles trocaram poucas palavras e Orion o conduziu imediatamente para a sala de conferência, desaparecendo pelo corredor.
Soltei o ar que nem percebi que estava segurando. Minhas mãos tremiam levemente. Eu tentei voltar ao trabalho, mas a tela do computador parecia borrada. Massimo estava de volta. E, por algum motivo que eu não conseguia explicar, eu sentia que o ar no escritório tinha acabado de se tornar muito mais pesado.

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