Capítulo 10 — O Limiar da Verdade
Emma Anderson
— Posso saber o que está fazendo em meu quarto?
A voz de Damien Knight não foi um grito, mas o tom baixo e gélido cortou o ar como um chicote. Eu congelei. Meus dedos, que ainda seguravam o porta-retrato de prata, pareceram perder a força, mas o medo de deixar o objeto cair e causar mais um estrago me fez apertá-lo com força. O pânico de ser descoberta, de ele ler no meu rosto que eu conhecia aquele sorriso de Clara melhor do que deveria, misturou-se ao pavor da fúria que emanava dele.
Eu não precisava me virar para saber que ele estava se aproximando. O som dos seus passos era firme, preenchendo o silêncio do cômodo imponente. Parecia que a temperatura do quarto havia caído dez graus em um segundo.
— Ficou surda de repente, senhorita Anderson? — Ele falou novamente, agora tão perto que eu podia sentir o calor da sua presença e o perfume de tabaco e luxo que o acompanhava.
Respirei fundo, tentando forçar meus pulmões a trabalharem, e virei-me com cuidado para encará-lo. Os olhos azuis de Damien não eram mais uma tempestade distante; eram uma tormenta real, violenta e pronta para me reduzir a nada.
— Eu… eu não… juro que não… — Minha voz falhou, presa no nó de pavor que se formara na minha garganta.
— Além de surdez temporária, também desenvolveu leseira? — Ele interrompeu brutalmente, o olhar descendo para o retrato em minhas mãos com um asco evidente.
Endireitei a postura, tentando recuperar os pedaços da minha dignidade enquanto minhas mãos ainda tremiam contra o vidro do porta-retrato.
— Sinto muito, senhor Knight — comecei, forçando as palavras a saírem. — Eu não sabia que este era o seu quarto. Eu não prestei atenção quando Leah me levou ao meu, e nem quando saí de lá com o Luca minutos atrás. As portas são todas iguais e eu só… eu só me confundi. Me desculpe.
Damien não relaxou um músculo sequer. Sua expressão era de uma frieza absoluta, como se estivesse analisando uma mentira óbvia.
— Quer que eu acredite que não se lembrava que seu quarto é ao lado do de sua irmã?
Engoli em seco, sentindo o suor frio brotar na minha nuca.
— Pensei que o de Luca era o do lado, e que o próximo fosse o meu. Foi uma confusão de direções, nada mais.
— Pensou errado — ele rebateu, a voz cortante. — E acabou no meu quarto. Eu odeio que entrem no meu espaço pessoal sem minha autorização. Mas odeio mais ainda… — ele fez uma pausa, os olhos fixos na moldura prateada — que mexam nas minhas coisas.
Só então me dei conta de que ainda estava segurando a foto de Clara. O peso do metal parecia queimar minha pele. Rapidamente, devolvi o retrato ao seu lugar no criado-mudo, com um cuidado quase reverente que ele certamente achou estranho.
— Me desculpe. Eu já estou de saída — falei, tentando passar por ele.
Ele fez um sinal seco com a cabeça para que eu saísse. Não esperei um segundo convite. Caminhei rapidamente até a porta, mas assim que coloquei a mão na maçaneta fria, ele falou novamente, sem se virar.
— O quarto do Luca é em frente ao de sua irmã. O seu é ao lado do dela. Não erre o caminho novamente.
— Sim, senhor. Obrigada — respondi sem olhar para trás.
Abri a porta e quase corri pelo corredor até alcançar o meu quarto. Assim que entrei, fechei a porta e me joguei na cama. O coração batia tão forte que eu podia ouvi-lo nos meus ouvidos. Meu corpo inteiro tremia em uma reação tardia ao confronto.
— Como pude ir direto ao quarto dele? — murmurei contra o travesseiro, a voz abafada pelo pânico. — Como pude segurar o retrato dela daquele jeito? E se… e se ele desconfiar?
Fechei os olhos e as lágrimas que eu segurei na presença de Damien finalmente transbordaram. Cada uma delas carregava uma dor diferente. A dor da culpa avassaladora, a dor da saudade dos meus próprios pais e, principalmente, a dor do medo. O medo de que Damien Knight descobrisse que foi comigo que Clara disse suas últimas palavras.
A lembrança me atingiu como um impacto físico, e por um momento foi como se eu pudesse ouvir a voz fraca dela novamente, abafada pelo som do metal retorcido e do fogo: "Faça desse dia o começo de uma história linda para vocês três".
Abri os olhos, encarando o teto escuro do quarto luxuoso que agora era minha prisão.
— Será, Clara? — sussurrei para o silêncio. — Será que eu vou conseguir?

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