Capítulo 104 — Gosto de saudade
Emma Anderson
Depois do final de semana agitado, nossa rotina havia voltado ao normal. Luca fez as terapias, Ellie as fisioterapias e Sandra insistindo sobre as crianças irem para a escola. Falei que conversaria com o Damien, mas, conhecendo meu namorado, já imaginava bem a resposta.
Mas conversar com ele não era o que me preocupava, e sim o jeitinho silencioso da minha amiga. Aubrey é o tipo de pessoa que não fica calada; a senhora "sem filtro" sempre tem algo a dizer. Ela é luz em qualquer ambiente.
Só que hoje ela estava apagada, calada, e isso me incomodava. Eu notava o brilho diferente que passava por seus olhos. Minha amiga dizia que não estava abalada com a situação da Giovanna e do Tristan, mas eu sabia que aquilo estava mexendo com ela.
Eu estava na sala de TV com as crianças e ela apareceu com uma bandeja de guloseimas preparadas pela Nina; deixou na mesa e já foi saindo, mas eu a puxei.
— Onde pensa que vai? — ela me olhou confusa.
— Voltar ao meu posto. — Revirei os olhos para ela e a obriguei a sentar no sofá ao meu lado.
— O expediente já acabou, e notei você fugindo de mim o dia todo.
— Não fugi. Você estava nos seus afazeres e eu nos meus.
— Bree… — chamei sua atenção, arqueando a sobrancelha. — Sabe que não precisa fingir comigo, né? — segurei sua mão. — Sou eu, sua amiga, sua melhor amiga. — A lembrei com um sorriso de lado, que ela retribuiu.
— Eu não estou fingindo, eu realmente estou bem. — Mantive meus olhos nos dela, mostrando que eu não acreditava naquilo. Ela soltou o ar e encostou no sofá antes de falar: — Tá, você está certa. Eu não estou bem e estou evitando falar sobre isso.
Encostei no sofá também e ficamos as duas encarando o teto.
— Amiga, sabe que falar é bom, né? Eu sou testemunha de como guardar as coisas para si é pior.
— Talvez seja o melhor, mas está doendo tanto… — virei meu rosto para olhá-la e ela fez o mesmo.
— E o que dói?
— O medo de perder… — ela respondeu, sincera. — Eu nunca me entreguei a alguém como me entreguei a ele. O Tristan me tem por completo, de corpo e alma, sabe? — Assenti com um aceno; eu entendia aquele sentimento, era como eu me sentia em relação ao Dam.
— E por que acha que vai perdê-lo? O Dam me disse que ele deixou claro para a Giovanna que está com você e nada vai mudar isso.
— Ele também me disse isso e, de verdade, Em, eu quero acreditar. — Uma lágrima solitária escorreu por seu rosto e eu a sequei. — Mas e se o filho realmente for dele e ela vier morar aqui? Será que ele realmente vai manter a palavra dele sobre mim? Ou voltar a conviver com ela, e ainda grávida…
As palavras dela morreram ali. O Damien me mandou mensagem contando sobre a conversa com a Giovanna, assim como me contou sobre a vaca da Verônica estar no hospital. Eu entendia o lado do Tristan e o apoio do meu namorado ao amigo. Mas eu também entendia a Aubrey e seus medos. E, no fundo, eu sabia que eles eram válidos.
— Sabe, Bree… — comecei e ela manteve os olhos nos meus. — Tem coisas que a gente só descobre vivendo. E você só vai ter as respostas para essas perguntas quando tudo acontecer. — segurei sua mão novamente. — Mas tem uma coisa que você já está vivendo, e eu sei que é real: é o amor de vocês. — Passei a mão por seu rosto, afastando seus cabelos negros. — O Tristan te ama e ele já provou isso. Agora, como vai ser se ele for o pai e ela vier passar um tempo aqui, só vamos saber na hora que acontecer.
— Você tem razão — ela respondeu, com a voz embargada.
— Só não sofra antes, não deixe esse medo te engolir e nem afaste o Stan. Eu e o Dam somos prova de que isso não dá certo. Conversa com ele, diz como está se sentindo e deixa ele te provar que vai ficar tudo bem.
Aubrey me puxou para um abraço.
— Obrigada, Em. Eu te amo. — Beijei seu rosto antes de responder:
— Também te amo.
— Por que estão se abraçando? — a voz da minha irmã chamou nossa atenção. — Eu também quero! — Ellie disse, se jogando sobre nós, e o Luca fez o mesmo.
Nós quatro rimos. A Bree pegou a Ellie no colo e o Luca subiu no meu. Quando levantei meus olhos, dois pares azuis me encaravam. O Damien estava encostado no batente, de braços cruzados, provavelmente tinha ouvido nossa conversa.
— TIO DAM! — minha irmã gritou, descendo do colo da Bree e correndo até ele.
— Oi, minha princesa — ele respondeu, a pegando. A Savannah surgiu na porta.
— Ellie, está na hora dos seus remédios. — Minha irmã revirou os olhos.
— Eu sei — respondeu, descendo os lábios pelo meu pescoço, deixando um rastro de beijos molhados que me arrepiaram inteira. — E eu tranquei a porta.
Um gemido baixo escapou quando ele mordiscou de leve a pele sensível abaixo da minha orelha. Minhas mãos apertaram os ombros dele, sentindo os músculos tensos por baixo da camisa. Ele me puxou mais para si, até eu ficar completamente colada ao seu corpo, sentindo cada parte dele contra mim.
Nossos beijos voltaram a ficar famintos. Línguas se enroscando, respirações ofegantes, mãos se explorando. A dele subiu por baixo da minha blusa, tocando a pele das minhas costas com dedos quentes, enquanto a minha descia pelo peito dele, sentindo o coração acelerado.
— Damien... — suspirei quando ele sugou meu lábio inferior, puxando de leve.
— Shh... só um pouco mais — pediu, a voz grave e cheia de desejo. Ele me inclinou para trás no sofá, cobrindo meu corpo com o dele sem me esmagar, uma perna se encaixando entre as minhas. O beijo ficou ainda mais intenso, quase desesperado, como se o mundo lá fora pudesse desaparecer e só existíssemos nós dois.
Cada carícia, cada aperto, cada suspiro parecia carregar todo o amor, a preocupação e a paixão que sentíamos um pelo outro. Era daqueles amassos que fazem o tempo parar. Daqueles que deixam a pele quente, o coração disparado e a mente completamente entregue.
Quando ele finalmente se afastou um pouco, com os lábios inchados e os olhos brilhando, encostou a testa na minha novamente.
— Eu te amo pra caralho, Emma Anderson — sussurrou, com o polegar acariciando minha bochecha. — Nunca duvide disso.
Sorri, ainda sem fôlego, passando os dedos pelos fios bagunçados do cabelo dele.
— Também te amo... mas se alguém tentar abrir aquela porta, eu juro que te mato depois.
Ele riu baixo, rouco, e me deu mais um beijo lento, cheio de promessas. Damien saiu de cima de mim, me puxou para sentar e me encarou por segundos mais do que necessários.
— O que foi? — perguntei, ele passou a mão no meu rosto, desceu os lábios nos meus me dando um selinho demorado.
— Eu não menti sobre estar com saudades. Mas também não menti sobre querer conversar.
— E sobre o que quer conversar? — Damien soltou o ar e senti a tensão irradiar dele.
— Sobre uma visita que teremos, e... sobre o acidente.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: O CEO de Gelo e a Mulher Que Ele Jurou Odiar