Capítulo 110 — Rede de Apoio
Emma Anderson
Não tinha como apagar o meu passado, e eu nem queria mais. Mas, pela primeira vez em dois anos, olhar para trás não me trazia mais aquele aperto sufocante na garganta. A conversa com o Damien na sala de TV ainda reverberava no meu peito, mas agora tinha um peso diferente.
O acidente já não era mais um monstro espreitando nas sombras; não era mais uma culpa que eu precisava carregar como um castigo eterno. Ainda era uma dor, uma cicatriz profunda que me lembrava da perda dos meus pais, mas eu finalmente sentia que estava começando a superá-la. Eu estava livre.
— Ei, Planeta Terra chamando! — A voz descontraída da Aubrey quebrou o meu transe, acompanhada de um estalo de dedos bem na frente do meu rosto.
Pisquei algumas vezes, balançando a cabeça para afastar as últimas lembranças. Olhei ao redor e me situei. Estávamos no carro do Dominic. Taylor estava ao volante, pilotando aquela máquina com audácia, como se ela mandasse nas ruas de Manhattan, enquanto a Fernanda ocupava o banco do carona, com o corpo ligeiramente virado para trás. Eu e a Bree dividíamos o espaço confortável do banco traseiro.
— Desculpa, meninas — falei, soltando um riso sem jeito. — O que você disse, Bree?
Aubrey soltou uma gargalhada, recostando-se no banco de couro.
— Eu perguntei para onde a sua mente viajou, porque você estava encarando a janela com uma cara de quem estava em outra dimensão.
— Ah, não precisa nem perguntar duas vezes — Taylor comentou, os olhos atentos ao trânsito, mas com um sorriso malicioso brincando nos lábios. — Com certeza ela foi de encontro a um certo loiro, dono de dois pares de olhos azuis bem mandões.
— Puta merda, Tay, você praticamente descreveu o seu marido, o Dam e o Ozzie de uma vez só! — Bree disparou, batendo a mão no joelho. — Esses primos e o senhor Costello foram feitos em um molde de fábrica com excesso de testosterona e possessividade.
O carro foi preenchido pelo som das nossas risadas. Era reconfortante ver como, mesmo no meio de tantos turbilhões, nós conseguíamos encontrar leveza quando estávamos juntas. No entanto, a diversão na voz da Aubrey cedeu espaço para um tom mais brando, mais acolhedor, quando ela voltou a segurar a minha mão.
— Mas sério, Em… No que você estava pensando? Dá para ver no seu olho que tem algo diferente.
Olhei para as três, sentindo que aquele era o momento de me esvaziar daquele resto de névoa. Respirei fundo e decidi contar tudo de uma vez.
— Eu estava pensando no que o Damien me disse antes de sairmos de casa — comecei, vendo a Fer se ajeitar no banco para prestar mais atenção e a Tay me encarar pelo espelho retrovisor. — Ele me contou o que a investigação do Vincent descobriu sobre o acidente. A culpa nunca foi minha. Nunca foi o meu cansaço, nem o meu desespero pelo estado do meu pai naquela noite. Foi a Clara. A Clara quem avançou o sinal vermelho e bateu direto no meu carro.
O silêncio que se instalou no veículo foi instantâneo e denso.
— Que merda! — Taylor xingou baixo, apertando o volante com mais firmeza, a surpresa nítida em seu rosto.
Bree apertou os meus dedos com força, os olhos arregalados.
— Meu Deus, Em… Como você está lidando com isso?
Soltei um longo suspiro, deixando meus ombros relaxarem contra o banco.
— No começo, bem ali na sala de TV, foi um turbilhão de emoções que eu nem soube explicar. É estranho, sabe? Eu passei dois anos me acostumando com a ideia de ser a culpada, de ser o monstro da história. Receber a notícia de que eu era inocente foi como um choque elétrico. E, sendo bem sincera com vocês, por alguns minutos eu cheguei a sentir uma ponta de raiva. Senti que o Damien estava sendo mais compreensivo e brando com a memória da Clara ao me contar sobre a falha mecânica do carro dela do que ele foi comigo no dia em que descobriu que eu estava no volante.
— E você tinha todo o direito de sentir isso, Emma — Fer disse, a voz suave, cheia de empatia. — O que ele te fez passar no início não foi fácil.
Olhei para a minha nova amiga e senti o carinho em seus olhos. Ontem, nós quatro passamos a tarde conversando, desabafando sobre a vida uma da outra. Hoje nos conhecíamos.


Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: O CEO de Gelo e a Mulher Que Ele Jurou Odiar