Capítulo 112 — Fogo Cruzado
Taylor Costello
Eu nunca tive ninguém além da minha mãe, por isso demorei muito tempo para entender o que era ter amigas de verdade. Quando o Dom me apresentou ao pessoal, rolou uma conexão imediata com as meninas. A Juliet e as outras são minhas irmãs, eu as amo de morrer, mas com a Aubrey, a Emma e a Fernanda… foi diferente.
Não sei se é porque nós quatro temos idades parecidas, não que a Ju e companhia sejam velhas, longe disso, mas tem algo nelas que bateu direto com a minha energia. Nós estamos na mesma página, enfrentando os mesmos furacões ao mesmo tempo.
Foi por isso que tive a ideia de ir atrás dessa tal amiga da Giovanna. Eu não suporto ver a Bree sofrer, definhando em silêncio por causa de inseguranças válidas, e muito menos aguento ver o Stan fazendo papel de idiota nas mãos daquela sonsa.
Eu queria desmascarar a cretina, armar uma caça às bruxas para tirá-la do caminho da minha amiga. O que eu jamais poderia imaginar era que, no meio desse fogo cruzado, eu também seria atingida.
Eu ainda estava com o celular do Dominic firme na minha mão, o visor na tela de áudio. Um ódio puro, cego e sufocante subia pelas minhas veias, fazendo meu coração martelar contra as costelas.
— Tay? — a voz da Emma me chamou, mas eu não respondi.
O som daquela voz melosa, arrastada, chamando o meu marido de "Dom, querido" ficava ecoando na minha mente, como um zumbido torturante. Aquela intimidade implícita, aquela certeza de quem achava que ainda era dele.
— Tay, fala com a gente — foi a vez da Fernanda me chamar, tocando de leve no meu ombro.
Só então forcei minhas cordas vocais a funcionarem, a voz saindo mais ríspida do que eu pretendia.
— Preciso de um minuto. Preciso pensar no que vou responder para essa piranha.
Emma olhou para mim, o cenho franzido em uma expressão confusa e preocupada.
— Não tem o que pensar, Tay. Manda uma mensagem direta dizendo que é a esposa dele, que pegou o celular por engano e que estava rastreando a Giovanna. Acaba com o assunto.
Olhei para a Emma e neguei com a cabeça, o maxilar tão travado que chegava a doer.
— Não. Eu quero entender isso aqui.
Cliquei no áudio novamente, sem me importar com o masoquismo da situação, fazendo a voz da tal Tiffany ecoar mais uma vez pelo interior do carro. "Eu sabia que, cedo ou tarde, você acabaria me procurando..."
Emma esticou o braço e segurou a minha mão que apertava o celular.
— Tay, olha para mim… Não tem o que entender. A mensagem dela deixa claro que o Dom não a procura e não fala com ela. Ela está se jogando. Então, ou deixamos isso para lá, ou você assume o controle e diz que ele tem dona.
Eu sabia que a Emma tinha razão. O lado lógico da minha mente mandava agir com essa maturidade, mas o meu sangue de barraqueira simplesmente explodiu. O Dominic nunca foi de falar detalhadamente sobre a vida dele antes de mim.
Eu sabia que ele tinha tido alguém, uma história antiga, mas ele guardava aquilo em uma caixa trancada. E então, em um estalo, as peças do quebra-cabeça se encaixaram na minha cabeça de um jeito violento.
Me lembrei de quando nos conhecemos, de quando eu precisei usar as roupas da maldita que estavam guardadas lá. As camisas de botão, o terninho social impecável, o estilo sério… Na época pensei que ela devia ser uma mulher de negócios. E era. A porra da Tiffany é advogada. Alguém fina, inteligente, que combinava perfeitamente com a postura do meu grandão. O fantasma dela ganhou rosto, profissão e voz em menos de cinco minutos.
O toque estridente do celular da Aubrey quebrou o meu transe obsessivo. Ela atendeu rapidamente, a voz contida. Ela não disse muito, apenas murmurou que estava tudo bem com a gente e que iríamos embora em breve. Houve um breve silêncio do outro lado da linha, até que a Bree respondeu um “ok” seco e encerrou a ligação.
— Os meninos vão precisar dar uma saída urgente — Aubrey nos contou, guardando o aparelho na bolsa. — O Stan disse que eles voltam logo.
Emma pegou o próprio celular no mesmo instante, vendo uma notificação na tela.
— É, o Dam também me mandou mensagem avisando. Disse que as crianças ficaram com a Diva e a Ava.
Fernanda olhou para o visor do dela.
— O Ozzie também avisou.
Olhei de relance para o aparelho do Dominic no meu colo. Ele era o único que não tinha me avisado. Claro, meu Thor estava sem o celular porque eu o havia roubado.
Quando finalmente estacionamos no subsolo, a garagem indicava o que já sabíamos: os carros dos caras não estavam lá. Subimos para meu apartamento, e eu fui direto ao quarto da Arianna. Minha menininha já estava dormindo profundamente, um anjinho sereno no berço.
Ajeitei o cobertor dela, deixei um beijo demorado em sua testa e saí do quarto tentando desarmar a bomba-relógio que eu sentia no peito.
Segui para a sala e encontrei as meninas sentadas espalhadas no chão. Ellie e Luca já estavam esparramados no sofá grande, dormindo o sono dos inocentes. Me aproximei em silêncio e sentei bem ao lado da Emma.
Tentei focar na conversa delas, usar as guloseimas que a Diva tinha preparado para me distrair, mas a minha mente se recusava a colaborar. Senti o braço da Emma envolver meus ombros de lado, me puxando para um abraço de conforto.
— Não faz isso com você mesma, amiga — ela sussurrou perto do meu ouvido.
Olhei para ela de soslaio, forçando um sorriso de lado que não chegou aos meus olhos.
— Estou tentando, Emminha… Juro para você que estou tentando.
Emma se inclinou e deixou um beijo carinhoso no meu rosto. Aquele gesto de puro afeto me deu uma amolecida, me fazendo respirar um pouco mais calma. Mas a trégua durou pouco.
O som característico do elevador privativo ecoou pelo hall, anunciando que a cabine havia chegado. Nós quatro nos levantamos em um único movimento automático, a postura ereta, os corpos em alerta.
As portas metálicas se abriram deslizando e, um a um, os caras começaram a sair do espaço. Dominic foi um dos primeiros. Os olhos dele cruzaram a sala e cravaram-se nos meus. Ele não estava com cara de muitos amigos, meu grandão provavelmente já tinha dado falta do seu precioso celular e sabia exatamente quem tinha sido a ladra.
Mas eu não abaixei o olhar. Sustentei a encarada dele com toda a petulância que eu tinha direito, estreitando os olhos para mostrar que, se ele achava que estava com alguma moral para me dar bronca, estava redondamente enganado. Eu tinha munição guardada.
No entanto, meu foco mudou drasticamente quando meus olhos passaram pelo ombro do Ozzie. Atrás dele, sendo guiada para dentro da sala, estava uma mulher de cabelos claros, com uma fisionomia abatida que tentava se esconder atrás dos rapazes.
Senti o ciúme, a surpresa e a audácia daquela situação se misturarem na minha boca. Dei dois passos à frente, cruzando os braços sobre o peito. Usei aquele tom de voz baixo, pausado e mortal que eu sabia que o Dominic conhecia muito bem, porque era o mesmo que ele usava quando estava prestes a quebrar alguém ao meio.
— Alguém pode me dizer que rolê foi esse, em que saíram daqui quatro Kens e voltaram com a Barbie?

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