Capítulo 145 — O Instinto do Tubarão
Taylor Costello
O dia tinha tudo para ser absolutamente perfeito. O céu estava limpo, o sol brilhava forte em Nova Jersey e tudo o que havíamos planejado para aquele sábado era curtir a piscina, dar risada e aproveitar o calor em família.
Mas as coisas na vida real raramente seguem o roteiro que a gente quer. O nosso castelo de areia desmoronou no exato milésimo de segundo em que cruzamos o hall interno da mansão e encontramos a nossa Bree estirada no chão, inconsciente, no pé daquela maldita escada.
Uma coisa que você aprende muito cedo na vida quando se vem da rua como eu, é que nem tudo é o que parece. A rua te dá uma espécie de segundo par de olhos, um faro cirúrgico para a maldade humana, e para mim era óbvio demais que aquilo ali não tinha sido um desmaio repentino e muito menos uma torção boba no tornozelo que fez a Aubrey vir escada abaixo.
Claro que não. Tinha dedo, ou melhor, a mão cheia, de alguém naquela história, e eu ia descobrir quem tinha sido, nem que precisasse virar a mansão do avesso.
Estávamos todas reunidas na sala de estar, com os nervos em frangalhos, esperando desesperadamente por qualquer notícia vinda do hospital, quando a cínica da Giovanna resolveu surgir das sombras.
Aquela garota exalava uma soberba nojenta. Ela podia até conseguir comprar muita gente com aquele jeitinho ensaiado de sonsa e aquela pose de alta sociedade, mas a mim ela não comprava nem com milhões de dólares.
Eu li o desespero e a culpa cravados naquelas sardas nojentas no instante em que ela tentou se fazer de desentendida, e eu fiz questão absoluta de deixar um aviso bem claro e perturbador antes de dar as costas.
— Aproveita, sardinha… porque eu estou indo buscar o meu tubarão.
Saí da sala de estar sem dar a ela a chance de respirar, caminhando firme ao lado da Emma e da Fernanda. Nós subimos as escadas a passos largos, corremos para os nossos respectivos quartos e nos trocamos em um piscar de olhos, arrancando os biquínis e colocando roupas decentes.
Em menos de dez minutos, eu já estava atrás do volante do meu carro, acelerando pelas ruas em direção ao hospital geral.
Assim que estacionei e cruzei as portas automáticas da recepção da emergência, meus olhos varreram o corredor frio e focaram direto na silhueta imponente do Dominic. Não perdi tempo com preliminares. Caminhei até ele com passos decididos e disparei.
— Grandão, a gente precisa conversar.
Todos ao redor, o Damien, o Ozzie e o Tristan, ficaram instantaneamente apreensivos com a nossa chegada repentina e, principalmente, com a urgência e a gravidade que pesavam na minha voz.
Dominic franziu o cenho, seus olhos azuis me mapeando inteira com uma preocupação genuína.
— Tay, o que houve? — ele perguntou, dando um passo na minha direção.
Olhei ao redor, notando a movimentação de enfermeiros e outros pacientes na recepção, e balancei a cabeça.
— Vamos para o carro, te explico tudo lá fora.
Ele assentiu prontamente, sem questionar. Pediu licença para os caras com um aceno rápido e me seguiu. As meninas permaneceram na sala de espera, cada uma se acomodando ao lado do seu namorado em busca de apoio mútuo.
No instante em que entramos no meu veículo e nos acomodamos nos bancos, fechando as portas e nos isolando do resto do mundo, olhei bem no fundo dos olhos dele e disparei a bomba de uma vez, sem anestesia.
— Foi a Giovanna. Foi ela quem empurrou a Aubrey da escada, Dom. O que significa que aquilo ali no hall não foi um acidente, foi uma tentativa de homicídio real e calculada.
Dominic me encarou em um silêncio absoluto por alguns segundos que pareceram longos e torturantes demais. O rosto dele adotou aquela rigidez profissional típica de quem está processando uma informação de alta gravidade.
Vendo que ele permanecia mudo, o meu sangue ferveu.
— Você ouviu o que eu acabei de dizer, grandão? — pressionei, batendo as mãos de leve no volante.
Ele passou a mão pelos cabelos claros, soltando um suspiro pesado antes de responder.
— Eu ouvi, Taylor. Mas as coisas não funcionam dessa forma no mundo real. Você não pode simplesmente acusar alguém de um crime dessa magnitude sem ter prova material alguma nas mãos.
Soltei uma risada anasalada, totalmente sem humor, cruzando os braços sobre o peito com irritação.
— Sem prova? Aquela cretina só faltou admitir o erro na minha cara quando ouviu a Emma contar que a Aubrey e o bebê estavam bem. O rosto dela caiu, Dom! Ela entrou em pânico puro. Eu passei a vida inteira aprendendo a detectar culpa na cara dos outros, grandão, e aquela ali exala culpa por cada poro do corpo.
— Amor… — Dominic começou, usando aquele tom de voz manso e paciente que ele só usava comigo para tentar desarmar as minhas bombas. — Eu acredito em você. Eu sei perfeitamente o quanto você é esperta, o quanto é observadora e como pega as coisas no ar com uma facilidade impressionante. Mas, como eu te disse, eu sou um agente federal. Eu não posso simplesmente caminhar até aquela mansão e prendê-la me baseando apenas em uma intuição ou em uma mudança de expressão facial.
Senti a raiva pulsar com força dentro do meu peito. Minha amiga estava deitada em uma cama de hospital, correndo o risco de perder o filho por culpa daquela maldita mimada, e saber que eu não podia simplesmente esfolar a cara daquela sardinha no asfalto quente estava me sufocando.
Percebendo o meu colapso iminente, Dominic esticou os braços largos, me segurou pela cintura e me puxou com facilidade para o seu colo. Fui sem oferecer nenhuma resistência; afinal, ele era o meu grandão e eu nunca, em hipótese alguma, recusava o seu carinho ou o abrigo do seu peito.
Ele passou o nariz de forma dócil pelo contorno do meu rosto, deixando beijos suaves na minha bochecha na intenção clara de me acalmar.
— Eu sei que você está profundamente preocupada, amor, e eu sei o quanto você quer justiça pela sua amiga. — ele sussurrou contra a minha pele, a voz grave vibrando no meu ouvido. — E eu também quero. Quero por ela, pelo bebê e pelo Stan, que está destruído ali dentro. Mas nós precisamos agir com cautela absoluta aqui. Se realmente foi a Giovanna e nós formos lá confrontá-la agora, sem nenhuma prova substancial, nós damos a ela uma vantagem estratégica. Ela vai se blindar, e vai sumir com os rastros.
Deitei a minha cabeça no ombro largo dele, aspirando o perfume familiar que sempre me trazia paz, mas não dei o braço a torcer.
— Eu sei, Dom… Mas ela é burra, eu percebi isso hoje. Se apertar um pouquinho, ela peida.
Dominic soltou uma risada contida no mesmo segundo. Senti o peito musculoso dele vibrar contra as minhas costas, o que acabou me fazendo soltar um sorriso também, quebrando um pouco daquela atmosfera cinzenta.
— Amor, eu acho que eu nunca vou conseguir me acostumar de verdade com esse seu linguajar. — ele brincou, dando um beijo na minha têmpora.
Levantei a cabeça para conseguir encará-lo de perto, arqueando uma sobrancelha com pura diversão.

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