Capítulo 16 — As Consequências Viriam
Emma Anderson
— Emma, está tudo bem? — Ambrose perguntou, segurando gentilmente no meu braço.
— Está sim, me desculpe.
— Tem certeza, querida? Você ficou pálida de repente.
— Tenho sim, senhor Blair. Agradeço pelas flores. É que já faz um tempinho que não visito meus pais e, saber que é para lá que estamos indo… mexeu comigo. Me desculpe, de verdade.
— Que isso, Emma, não precisa se desculpar. Eu quem peço desculpas se fui invasivo demais; só pensei em fazer algo bom para você.
Me senti mal pela minha reação. Desde que nos conhecemos, Ambrose sempre foi um poço de gentileza, e eu aqui, agindo de forma estranha.
— Não foi invasivo, senhor Blair, agradeço pelo gesto — falei, levantando o arranjo, e ele, mais uma vez, pegou no meu braço com carinho.
— Algum problema? — A voz de Damien chamou nossa atenção. Me virei e ele estava com Luca em seu colo e Tristan ao seu lado, carregando os arranjos.
— Não. Os pais da Emma estão no mesmo cemitério e comprei um arranjo para que ela leve para eles.
Damien me olhou daquele jeito de sempre.
— Poderia ter me dito — ele disse, em um tom irritado. — Eu não me importaria em pagar um arranjo aos seus pais.
— Desculpa, senhor Knight. Eu não disse nada pois não sabia que era o mesmo cemitério. Sabia que estávamos indo a Nova York, mas não tinha ideia de que era no Green-Wood.
Ele assentiu com um aceno breve.
— Precisa de mais alguma coisa? — ele me perguntou, e neguei rapidamente com a cabeça.
Saímos os cinco, entramos nos carros e seguimos viagem. Eu percebia a irritação dele; não sabia dizer se era pelo momento, pois hoje era aniversário da Clara e estávamos indo comemorar em um cemitério, ou pelo fato de Ambrose ter comprado o arranjo para os meus pais.
— Sinto muito, senhor Knight… — As palavras saíram antes que eu pudesse controlar.
— Pelo que exatamente, senhorita Anderson? — ele perguntou, sem desviar os olhos da estrada.
— Por tudo. Por sua esposa. Por não ter falado que meus pais estavam no mesmo cemitério… — Abaixei a cabeça e senti as lágrimas queimarem meus olhos, porque a dor do Damien refletia a minha. Pois ambos estávamos sofrendo. Nós dois perdemos alguém naquele dia.
— Eu realmente não sabia que sua esposa estava lá — continuei. — E eu não vou lá há meses. — Virei o rosto para a janela, porque dessa vez as lágrimas escorreram. — A situação andava tão difícil que eu nunca tinha dinheiro para as flores, nem mesmo para o transporte até o cemitério.
Senti meu peito apertar. Damien ficou em silêncio e eu agradeci por isso. Já era humilhante demais admitir essas coisas ao meu chefe. E também doloroso demais saber que estávamos todos naquela situação por minha causa. Clara, minha mãe, meu pai. Todos se foram por minha culpa.
Chegamos ao cemitério. Damien pegou Luca da cadeirinha, mas o menino quis o meu colo. Sorri para ele e estendi os braços para pegá-lo.
— Me dê suas flores, eu as seguro para carregá-lo. — As palavras de Damien mais uma vez me pegaram de surpresa. Assenti, entreguei o arranjo a ele e peguei Luca no colo.
Caminhamos pelo cemitério com Ambrose e Tristan ao nosso lado. Paramos em frente a um mausoléu todo feito em mármore, com o nome Knight. Antes de entrarmos, Damien se virou para mim, me entregou as flores e pegou Luca do meu colo.
— Pode ir visitar seus pais. Quando acabar, venha direto para cá.
Assenti com um aceno.
— Mas o pai dele, o Damien… não sabe quem eu sou. Luca não fala, então ele não conta, e eu também escondo. Só que não sei mais por quanto tempo vou segurar isso dentro de mim. Viver na casa da Clara, cuidar do filho dela, conviver com seu marido… é doloroso demais.
Voltei a chorar intensamente.
— Só que se eu perder esse emprego, Ellie e eu voltamos àquela vida miserável, sem dinheiro, sem comida e sem um pingo de dignidade. E eu não sei o que fazer, papai. Eu queria tanto que o senhor estivesse aqui. Eu queria tanto não estar dirigindo aquele carro.
Encostei a cabeça na lápide onde estava a foto deles e falei entre os soluços:
— Eu estou tão cansada, papai. — Meus soluços ecoavam sobre o lugar silencioso, mas não me importei. — Eu não sei mais o que fazer. Eu não sei mais quanto tempo vou aguentar. Eu me sinto sozinha. Eu não tenho ninguém a não ser a Ellie, e ela precisa tanto de mim. Mas eu também preciso de alguém…
Meus soluçõs eram altos. Doloridos e desesperados.
— Por que não fui eu? Por que não fui eu quem morri…
Eu desabei.
Porque a realidade era dura demais com pessoas como eu. Eu precisava ser forte, pela Ellie. Mas quem seria forte por mim? Eu não tinha mais ninguém. E eu estava cansada de tudo isso. Todos os dias, nos últimos dois anos, eu me perguntei: por que não fui eu?
Eu estava quebrada. Desesperada. Arrasada. E não o ouvi se aproximar. Foi só quando seus braços me puxaram para seu peito que eu o vi. Meus olhos encontraram os azuis dos dele e a voz do homem que eu conheço há somente uma semana foi o que me ancorou.
— Porque você ainda tem uma vida linda.
Me agarrei a ele e chorei. Eu ia me arrepender daquilo depois. As consequências desse choro viriam. Esse momento estaria em nossas memórias para sempre. Mas eu não me importei.
Porque, em dois anos… esse foi o primeiro abraço que recebi.

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