Capítulo 17 — Coincidências Acontecem
Damien Knight
O dia de hoje sempre mexe comigo. Acho que mais do que o dia de sua morte, porque me lembra que foi nossa última noite felizes juntos. Porque depois desse dia tudo desandou.
Clara estava linda, com aquele sorriso que iluminava o mundo, o único que conseguia derrubar todas as minhas barreiras. Naquele dia, comemoramos sua vida. E, meses depois, eu chorei sua morte. Meu primo Ambrose e meu amigo Tristan sempre me acompanham junto do Luca para levar as flores. Hoje, tínhamos um elemento novo. Um que me intrigava e irritava na mesma proporção, e eu nem entendia o porquê.
Emma Anderson.
Eu não pude deixar de notar seu jeito menina-mulher naquele vestido. Assim como não pude deixar de notar como essa situação mexia com ela. Eu não sabia se era pela minha situação e do Luca, de comemorarmos o aniversário de alguém que já se foi, ou se era pela própria situação dela, por também ter perdido alguém e entender bem essa dor.
Na floricultura, percebi a aproximação de Ambrose e Emma. Sei que ela não faz o tipo dele; apesar de ser muito bonita, ela ainda é inocente demais. Mas os olhos dele tinham algo quando olhavam para ela, e isso me tirou do sério por um instante.
Seguimos para o cemitério e permiti que Emma fosse visitar o túmulo dos pais. Assim que ela saiu, entramos os quatro no mausoléu. Como sempre, Luca desceu do meu colo correndo e foi para a moldura onde tinha a foto de Clara. Ele não dizia nada, só acariciava a imagem. Mesmo com fotos dela espalhadas pela casa, somente aqui… Luca tocava nela.
Deixei as flores como sempre faço. Toquei a pedra.
“Feliz aniversário, querida”, murmurei.
Tristan sempre se emocionava. Ele e Clara eram amigos de infância; foi através dele que a conheci. Luca sentou no chão e ficou ali encarando a mãe por alguns segundos. Depois, se virou para mim e pegou minha mão.
— O que foi? — perguntei, e ele fez sinal para a porta. — Mas acabamos de chegar, Luca. Nem falamos com a mamãe.
Ele soltou a minha mão e foi na de Ambrose, que ele sabia que sempre cedia a ele muito mais do que eu. Ambrose o pegou no colo e perguntou:
— Você quer ir atrás da Emma? É isso?
Meu filho balançou a cabeça em um “sim”.
— Ok, então vamos — Ambrose respondeu e foi indo em direção à porta, mas o impedi.
— Eu vou. — Ele me olhou confuso.
— Pode ficar aqui, Dam. Eu o levo até ela.
— Não — respondi sem hesitar, e peguei meu filho de seu colo. — Eu mesmo irei.
Ambrose assentiu sem questionar. Com Luca no colo, segui pelo caminho que Emma fez. Começamos a procurá-la até que Luca apontou e eu a vi. Notei que ela estava chorando. Era seu momento e, de verdade, eu não queria interromper. Mas meu filho começou a se mexer em meu colo.
— Luca. — Chamei sua atenção. Ele não parou. Era como se estivesse sentindo a dor da garota e quisesse ir lá.
Caminhei com ele, bufando pela birra que estava fazendo, ao mesmo tempo me arrependendo de ter vindo. Mas, quando nos aproximamos… Eu não sou um cara muito carinhoso e tenho uma certa dificuldade em expressar sentimentos. Clara sofria com esse meu jeito, e às vezes até o Luca sofre. Mas ver a Emma daquele jeito, e as palavras que saíam de sua boca…
— Por que não fui eu? Por que não fui eu quem morri…
Coloquei Luca no chão e, sem pensar… porque se eu pensasse, não faria. Fui até ela. Me agachei e a puxei para meu peito. Nossos olhos se encontraram e as palavras saíram da minha boca sem que eu as controlasse:
— Porque você ainda tem uma vida linda.
Ela se agarrou a mim como se eu fosse a única coisa que a mantinha em pé. O choro dela era carregado de uma dor que eu nunca vi. Na verdade, acho que nunca senti algo assim, essa dor que te faz desejar morrer. Eu não sabia o que fazer. Nesse momento, Ambrose seria melhor do que eu. Ele saberia o que dizer. O que fazer. Mas eu… eu só soube abraçá-la.
Quando Luca parou ao seu lado e colocou a mão em seu rosto, que ainda estava enterrado em meu peito, que Emma saiu daquele momento por um instante. Ela encarou meu filho, que passava a mão em seu rosto sem dizer uma única palavra.
— Desculpa, pequeno… não queria chorar assim na sua frente.
Emma se afastou de mim, e Luca aproveitou e a abraçou. Ela voltou a chorar abraçada a ele, mas desta vez era um choro silencioso. Sem aquele desespero de minutos atrás. Ela se separou de Luca, limpando as lágrimas rapidamente.
— Me… me desculpa, senhor Knight. Eu não… eu não consegui controlar. Mas não vai se repetir — a voz dela saiu quebrada.
Ouvimos passos. Quando olhei, eram Ambrose e Tristan. Meu primo, claro, vendo a garota daquele jeito, correu até ela. Mas não antes de me lançar um olhar duro, como se esperasse que fui eu quem causei as lágrimas.
— Emma, está tudo bem? — Ele estendeu a mão para ela, que aceitou de imediato.

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