Capítulo 22 — Rotina de sábado
Emma Anderson
Acordei sentindo um peso sobre mim. Demorei alguns segundos para me situar e entender o que estava acontecendo. Quando olhei pro lado eu tinha a Samara de “O chamado” sobre mim.
— Santo Deus!! — Falei assustada.
Bree resmungou algo inaudível e eu ri. Os cabelos lisos e negros dela estavam por todo seu rosto, e os braços jogados na minha cintura.
Quando a alma voltou para meu corpo a tirei de cima de mim e segui para o banheiro na ponta dos pés. A água morna do chuveiro ajudou a despertar meus músculos e a organizar meus pensamentos.
Hoje era sábado, o sol lá fora prometia um dia bonito, e eu havia prometido às crianças que brincaríamos no jardim. Ellie ainda requer de cuidados específicos, a fadiga dela era algo que me assombrava constantemente, mas eu já tinha planejado atividades leves, algo que não a esforçasse, mas que a fizesse sentir o vento no rosto.
Saí do banheiro já trocada, vestindo algo prático, e deixei a Samara bem onde ela estava. Porque segundo ela, o mundo só passaria a existir depois do meio-dia, e eu não seria a pessoa a interromper o sono de beleza da minha única amiga.
No entanto, assim que passei pela porta do meu quarto, o destino decidiu me testar. Trombei com força em um peito musculoso, firme e ligeiramente suado. Mãos grandes e seguras envolveram meus braços para evitar que eu cambaleasse para trás.
Levantei os olhos com cuidado, eu sabia exatamente quem era, e estava morrendo de medo de encará-lo depois do que ele ouviu ontem.
— Bo… Bom dia. — gaguejei, ainda nos braços dele.
— Bom dia. — A voz dele veio grave, vibrando no ar e arrepiando até os cabelos da minha nuca. — Como você está hoje? — ele perguntou ainda me segurando.
— Estou bem. — respondi, sabendo que a pergunta era por conta do surto que tive ontem em seu escritório.
— Que bom. — foi tudo que ele respondeu.
O cheiro dele me envolveu completamente. Era uma mistura inebriante de essência amadeirada com o suor limpo de quem acabou de vir da academia da mansão. Por alguns segundos que pareceram horas, ficamos ali naquele corredor silencioso: ele me segurando, eu o encarando com os lábios entreabertos. O magnetismo era real, assustadoramente real. Até que a realidade me atingiu como um balde de água gelada. Me soltei de seus braços quase correndo.
— Eu vou… — fiz sinal para a porta do Luca. — Já está na hora dele acordar.
— Ok. — ele me respondeu em seu tom habitual. Não havia calor em sua voz, mas seus olhos… esses pareciam me queimar, seguindo cada movimento meu.
Fiquei parada ali, como uma idiota, olhando para ele enquanto ele passava a mão pelo pescoço suado. Damien cruzou os braços, ergueu uma das sobrancelhas para mim e disparou:
— Ainda precisa de alguma, senhorita Anderson?
Preciso me lembrar de como se respira e como as pernas funcionam, pensei, mas obviamente não disse.
— Não… eu to indo. Até logo senhor Knight.
Obriguei minhas pernas a funcionarem. Entrei no quarto do Luca, encostei as costas na porta e soltei o ar que eu nem sabia que estava prendendo.
— Emma, que merda é essa? Você precisa agir como uma pessoa normal. — murmurei pra mim mesma.
Quando olhei para a cama Luca já estava acordado, sentado na cama me esperando.
— Bom dia, meu amor! — falei, forçando um entusiasmo que logo se tornou real ao ver o rostinho dele.
— Nina, onde ficam exatamente os cookies que ele gosta? — perguntei, perdida naquela imensidão de marcenaria de luxo.
— Na terceira porta à direita, na última prateleira, querida.
— Obrigada.
Fui até lá e abri a porta. Suspirei ao ver a altura. Fiquei na ponta dos pés, estiquei o braço o máximo que pude, mas meus dedos apenas roçavam a borda do pote de vidro.
— Que droga! — xinguei baixo, tentando mais um impulso.
No meio da minha frustração, entretida com o pote teimoso, não ouvi os passos leves sobre o piso. Senti, de repente, uma mão firme e quente pousar na minha cintura, enquanto um braço longo passava por cima da minha cabeça, alcançando o pote com uma facilidade irritante.
Meu coração disparou. O calor do corpo atrás do meu era inegável. A proximidade era tanta que eu podia sentir a pressão do peito dele contra as minhas costas. Ele abaixou o braço devagar, segurando o pote de cookies bem na frente do meu rosto, antes de se inclinar e sussurrar rente ao meu ouvido:
— Prontinho.
Prendi a respiração, sentindo um arrepio elétrico percorrer minha espinha. A voz era suave, mas carregada de uma intimidade que me deixou zonza.
— Obrigada — agradeci em um sussurro, mas não tive coragem de me virar. Eu estava paralisada pelo toque daquela mão que continuava possessivamente na minha cintura.
O silêncio na cozinha se tornou pesado, carregado de algo que eu não conseguia definir, mas que me fazia querer fechar os olhos e me inclinar para trás, para aquele abraço implícito. Ele ainda estava perto demais, sua respiração batendo na curva do meu pescoço, quando uma voz fria e cortante como uma navalha estalou no ar, congelando o ambiente instantaneamente.
— Estou atrapalhando alguma coisa?

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