Capítulo 26 — Me Leva Junto
Emma Anderson
Ver Ellie daquele jeito não só me abriu o peito, como me levou a anos atrás. O cheiro de hospital, o som metálico das macas, o frio que sobe pelos pés... tudo me jogou de volta para o dia em que encontrei meu pai caído no chão, roxo, lutando por um ar que não chegava mais. Foi a partir daquele momento que nossa vida desandou. E agora, o pesadelo estava se repetindo, mas com a única pessoa que ainda me mantinha amarrada à sanidade.
Eu não conseguia parar de chorar. Minha visão estava embaçada, o mundo girava em tons de cinza e branco. Não conseguia imaginar, nem que fosse por um segundo, a minha vida sem a minha irmã. Se a Ellie partisse, o que restaria de mim? Apenas uma carcaça vazia, assombrada por culpas que eu não conseguia nomear.
Damien agiu rápido. Ele era uma força da natureza, um homem que não aceitava "não" como resposta. Savannah também mostrou por que era considerada uma excelente enfermeira; suas mãos se moviam com precisão, tentando manter o mínimo de oxigênio nos pulmões da minha pequena.
Mas tudo desandou de vez quando aquele homem tentou nos impedir de passar. O enfermeiro tinha um olhar vazio, burocrático. Ele exigia regras, protocolos, formulários preenchidos, enquanto a minha irmã de seis anos, o meu mundo inteiro, lutava para respirar em uma maca que parecia grande demais para o seu corpo frágil.
Eu desabei ali, no meio daquele corredor gelado. Meus joelhos bateram no chão e eu nem senti a dor física; a dor de dentro era infinitamente maior, me corroendo, me rasgando. Eu ouvia as vozes ao fundo como se estivesse debaixo d'água: Damien gritando, Ambrose tentando intervir, Savannah passando instruções técnicas. Mas tudo o que eu conseguia fazer era chorar e clamar a um Deus que eu ainda acreditava, ou queria acreditar, que existia.
“Por favor, salva minha irmã. Por favor… eu estou implorando.”
Meu choro ecoava pelo corredor, um som primitivo que parecia não pertencer a mim. Minha mão estava presa na da minha irmã, os dedos dela estavam frios, uma temperatura que me aterrorizava. Eu não soltava. Se eu soltasse, ela iria embora. Eu sentia que minha mão era o único fio que a prendia à vida.
Até que uma voz firme, cortante como uma lâmina, chamou nossa atenção e fez o caos silenciar por um milésimo de segundo.
— LEVEM A MENINA PARA O BOX QUATRO! AGORA!
Levantei o olhar, a visão turva pelas lágrimas que não paravam de brotar. Um médico estava parado no final do corredor. Alto, postura impecável, olhar afiado. Ele era o tipo de homem que não pedia espaço nem permissão; ele simplesmente tomava o que queria pela autoridade que emanava.
— Elijah… — ouvi a voz do Damien. Estava mais baixa, carregada de um alívio contido que eu nunca tinha ouvido nele.
As coisas começaram a acontecer rápido demais. Rápido demais para o meu cérebro processar. Mãos firmes afastaram as minhas das dela. O toque de metal da maca ressoou enquanto ela se movia em alta velocidade.
Ellie…
— NÃO! — tentei me levantar, mas minhas pernas pareciam feitas de gelatina. Tropecei nos próprios pés, o desespero me cegando. — Não tira ela de mim! Eu preciso ir com ela! Eu sou a irmã dela, eu sou tudo o que ela tem!
— Emma…
Meu nome veio acompanhado de dois braços poderosos que envolveram minha cintura, me levantando do chão antes que eu caísse novamente. A voz dele era firme, baixa, controlada. Mas, pela primeira vez, não era fria. Era… segura.
Virei meu rosto e olhei para Damien. Os olhos dele, aquele azul-tempestade que costumava me intimidar, agora estavam presos nos meus como se estivessem tentando me ancorar naquele caos, impedindo que eu fosse levada pela correnteza do pânico.
— Ele é o melhor — ele disse, me mantendo presa contra seu peito — Confia em mim, Emma. Confia em mim.


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