Capítulo 28 — Ironia do destino
Emma Anderson
As palavras dele ainda ecoavam na minha mente.
“Para que tenha uma vida linda…”
Damien me disse isso no túmulo dos meus pais, e agora ele reforçava o desejo o estendendo para minha irmã. Eu não devia deixar que ele me consolasse desse jeito; não devia estar agarrada a ele como estou. Mas eu não conseguia soltar. Algo dentro de mim me dizia: “Fica. Confia. Aceita”. Só que tinha um outro lado que também dizia: “Você está mentindo. Ele odeia mentira. Ele odeia você…”.
E foi esse que ganhou.
Saí dos braços dele com cuidado; não queria parecer ingrata ou coisa do tipo. Damien lutou pela vida da minha irmã, mas eu precisava voltar aos nossos limites.
— Obrigada… — sussurrei, desta vez me afastando de vez. Meu corpo sentiu falta do calor dele assim que me afastei. Que irônico: o homem considerado de gelo… emanava calor.
— Não precisa me agradecer. Eu fiz o que tinha que ser feito.
— Então obrigada por ter feito… “o que tinha que ser feito”. — rebati sem hesitar, porque queria que ele soubesse o quanto eu estava grata.
Os olhos dele ficaram presos nos meus, e eu também não conseguia desviar. Damien deu um passo para frente, invadindo meu espaço. Ele levantou a mão, como se fosse tocar meu rosto, mas a abaixou.
— Emma… — a voz dele veio baixa.
— Sua água, querida. — Savannah apareceu, nos tirando daquele transe. Dei um passo para trás e olhei para ela.
— Obrigada, Sa. — Forcei um sorriso. Peguei a água e dei um gole generoso. Ouvimos a porta se abrir atrás de nós. Olhei para aquele corredor; o desejo de ver minha irmã gritava dentro de mim. — Será que eles não vão me deixar vê-la? Queria que ela soubesse que estou aqui, que ela não está sozinha — falei, olhando para o Damien.
— Vou falar com o Elijah assim que ele voltar. Se ele demorar, eu ligo para ele ou vou até a recepção. — Damien disse naquele tom autoritário, como se as palavras dele fossem a garantia de que isso ia acontecer.
Agradeci com um aceno e um sorriso, que ele não retribuiu, mas também não precisou, porque a forma como ele me olhava falava mais do que palavras. E muito mais do que qualquer sorriso.
Elijah não apareceu, e Damien fez como prometeu: ligou para ele e, em alguns minutos, a porta se abriu novamente e uma enfermeira passou por ela.
— Familiares da Ellie Anderson?
— Sim, sou irmã dela.
— Me acompanhe, por favor. O doutor Cross autorizou a entrada da família.
Damien caminhou ao meu lado em direção à porta. A enfermeira olhou para ele.
— O senhor é familiar?
— Sim.
Foi tudo o que ele respondeu, não deixando espaço para dúvidas. Caminhamos lado a lado, em silêncio atrás da enfermeira. Paramos em frente a uma porta. A enfermeira segurou a maçaneta antes de abrir e se virou levemente para mim.
— Ela está estável, mas ainda sob monitoramento constante — disse em um tom profissional, mas gentil. — A visita não pode demorar muito, tudo bem?
Bip… Bip… Bip…
Havia aquele silêncio entre um e outro. Minha respiração travou. Levei a mão dela até o meu rosto, encostando-a com cuidado, fechei os olhos. E então… eu quebrei.
— Só não me deixa, El… — minha voz saiu em um fio, completamente destruída. — Eu só tenho você…
O silêncio me respondeu. Mas… não foi com palavras, foi com ele. Eu senti Damien se aproximando. Sem pressa. Sem invadir. Mas ficando ali, tão perto que eu conseguia sentir o calor do corpo dele nas minhas costas. Naquele momento, eu entendi. Não foi preciso uma palavra direcionada a ele. Não foi preciso um pedido. E, mesmo sabendo que aquilo era errado… que não devia acontecer… que eu não podia… eu cedi.
Meu corpo inclinou para trás, encontrando o dele. Minha cabeça descansou em seu ombro. E, pela primeira vez desde que tudo começou… eu parei de lutar.
Senti a mão dele na minha cintura. O leve aperto. Firme. Presente. Como se dissesse, sem dizer: “Eu estou aqui”.
E ele estava.
Ficamos ali. Sem palavras. Sem promessas. Sem mentiras. Só o som dos monitores… e o peso do momento… E, no silêncio compartilhado entre nós, fechei os olhos novamente.
— Obrigada… — sussurrei, mas desta vez não era para o Damien.
Era para Deus. Eu estava imensamente agradecida. Por ela estar viva. Por ainda estar ali. Por ainda ter uma chance. E, de alguma forma… também por ele. Por Damien.
O que era irônico, ou talvez fosse uma grande piada de mau gosto do destino.
Porque, no final, o homem que eu mais temia… era o único que eu queria por perto neste momento.

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