Capítulo 29 — O Peso do Amanhã
Emma Anderson
Algumas semanas se passaram desde o dia em que quase perdi a Ellie naquele corredor frio. Semanas que não cabem no calendário. Porque, dentro de um hospital, o tempo não anda… ele se arrasta. Se mede em bipes. Em passos de enfermeiros. Em noites que nunca parecem terminar.
Eu perdi a conta de quantas vezes acordei no susto, achando que o som dos monitores tinha mudado. Ou pior… que tinha parado.
Foram dias vendo minha irmã ligada a fios, máscaras, aparelhos… lutando por algo que eu sempre achei automático: respirar.
A pneumonia foi controlada. A crise passou. A cor voltou aos poucos para o rosto dela. E, junto com a cor… vieram os sorrisos. Pequenos no começo. Cansados. Mas ainda assim… sorrisos. E cada um deles era uma vitória.
Mas a fibrose… a fibrose não vai embora. Ela não tem fim. Ela fica. Silenciosa. Esperando. Aprendi isso do jeito mais difícil. Aprendi nos corredores desse hospital. Nas conversas baixas dos médicos. Nas explicações pacientes da Savannah. Nos olhares firmes do Elijah e nas suas palavras sinceras: “Não é sobre curar. É sobre cuidar.”
Agora, nossa vida não seria mais a mesma. Ellie precisa de cuidados todos os dias. Inalações. Remédios. Exercícios para ajudar o pulmão a fazer o que, sozinho, já não conseguia mais. Consultas. Acompanhamento constante. Atenção sempre e para sempre.
Em um momento, um pensamento intrusivo me atingiu: “Você não vai conseguir”. Mas, no meio dos meus devaneios, veio uma voz… a voz firme que tem me ancorado por todas essas semanas dizendo: “Eu estarei aqui.”
Damien não só garantiu tudo que minha irmã precisava. Ele me permitiu ficar com ela. Manteve Savannah na folha de pagamento e ainda liberou a Bree para ficar com a Ellie, nas horas que eu precisava ir para casa dar um cheiro no Luca.
Eu quis recusar, eu sempre quero. E tudo que ouvi dele foi: “Quero o melhor para a menina”. Mas tinha algo ali. Não era caridade. Sabia que não. Só que eu não estou preparada para nomear isso ainda, e acho que ele também não.
— Bom dia. — A voz do Elijah me tirou dos meus pensamentos.
— Bom dia, doutor. — respondi.
Ele se aproximou, sentou na beiradinha da cama e olhou para Ellie com o carinho de sempre.
— E aí, pronta para ir para casa?
— SIM!! — ela gritou levantando os braços. Nós dois rimos.
— É essa empolgação que eu queria ver. — Elijah disse antes de olhar para mim. — Já conversei com o Henry, ele vai continuar acompanhando ela. E o Jacob também.
— Obrigado, doutor. — estendi a mão para ele, que a pegou com carinho. — Imagina, querida, eu só fiz o meu trabalho.
Ele virou para Ellie e começou a falar com ela fazendo cócegas.
— Agora essa garotinha aqui precisa fazer tudo o que o tio Henry e o tio Jacob falarem.
Ellie riu das cócegas. Estávamos distraídos que não ouvimos a porta.
— É aqui que temos uma garotinha de alta? — Ozzie disse entrando com alguns balões na mão. Os olhos da minha irmã brilharam.
Nessas semanas não foi só o Damien quem esteve presente, Ambrose também. Ele se tornou um amigo querido. Eu vejo que Damien não gosta muito da nossa amizade. Mas Ozzie não se importa com isso, e bem, eu não vejo motivos para não sermos amigos, então eu também ignoro.
— Tio Ozzie, nós vamos poder ir ao parque? Você prometeu levar eu e o Luquinha quando eu tivesse alta.
— Ellie. — repreendi minha irmã que me olhou com aquela cara de “o que foi?”.
Ambrose riu, entregou os balões para Ellie e deu um beijo no topo de sua cabeça.
— Eu prometi. Eu cumpro. — ele disse, mais direcionado a mim do que à minha irmã. — Mas… — ele bateu com o dedo no nariz da minha irmã. — Vamos ter que ver com esse doutor aí se podemos. — ele apontou para o Elijah.
— Hoje não, gatinha. Mas vamos falar com o tio Henry e, assim que ele der um “ok”, até eu irei ao parque com você.
Minha irmã assentiu satisfeita, e meu coração se aqueceu. Há meses era somente Ellie e eu. E, mesmo que tenha sido no meio deste caos, nós encontramos pessoas queridas, que nos mostram todos os dias que estão por aqui… pelo tempo que precisarmos.



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