Capítulo 33 — Qual você vai ser?
Damien Knight
Eu não esperava ver Verônica depois de todos esses anos, e muito menos em um encontro inusitado desses. Mas eu não podia simplesmente ignorá-la. Quando Emma bufou ao ver a mulher pedir meu telefone, eu quis rir, mas não podia me entregar desse jeito.
Só que, no instante em que ela me entregou o Luca daquele jeito, me arrependi da minha interação com Verônica, porque ali eu percebi que Emma tinha entendido tudo errado. Ela nem mesmo me deu tempo de abrir a boca; falou com a Ellie, se despediu e saiu pisando duro.
Nós não temos uma relação. Quer dizer, somos funcionária e patrão. Mas isso não nos dá o direito de sentir ciúme um do outro. E, mesmo assim, é exatamente isso que sentimos.
— Tio Dam… — Ellie me chamou, apertando minha mão. — Seu telefone está tocando.
Soltei a mão dela e atendi.
— Dam? — a voz de Ozzie veio do outro lado. — Onde vocês estão? Já estou no estacionamento.
— Na frente do elevador do terceiro piso.
— Estou subindo — ele avisou.
Esperamos alguns minutos, a porta se abriu e, assim que ele passou, Ellie soltou minha mão e foi até ele.
— Tio Ozzie!! — Ele pegou a menina no colo.
— Como vai, princesa?
— Eu estou bem! O tio Dam vai levar a gente no parque para andar de carrossel — ela se virou para mim. — Né, tio Dam?
— Sim, princesa.
— Cadê as meninas? — Ozzie me perguntou.
— Foram à loja no final do corredor. — Eu sabia disso porque, enquanto estava esperando Ambrose, meus olhos acompanharam Emma até ela entrar na loja.
— E aí, vamos ao parque ou fazer companhia às meninas? — ele perguntou.
— Parqueeeee!! — Ellie respondeu, animada.
Entreguei Luca a ele. Ozzie me olhou confuso.
— Leve-os, te encontro em alguns minutos.
— Como assim? Pensei que seríamos babás juntos, e não que o B.O. seria só meu!
— O que é B.O.? — Ellie perguntou para Ozzie, e Luca o encarou também.
— Vocês dois — meu primo respondeu, os apertando em seu colo, e os dois riram.
— Então eu sou o B.O. 1 e o Luquinha é o B.O. 2, porque eu sou mais velha — ela disse convicta, como se ser um “B.O.” fosse uma coisa boa.
— Já volto — falei.
— Só vou aceitar porque imagino onde esteja indo. Aproveita, para de agir igual a um adolescente e aja como um homem — ele me repreendeu, e eu praticamente rosnei de volta.
O deixei para trás e fui em direção à loja.
O que eu estava indo fazer lá? Eu não tinha a mínima ideia. Eu só sabia que precisava ir. Entrei na loja e perguntei a uma das vendedoras sobre as meninas; ela informou que estavam na área dos provadores. Passei pelo lugar e vi a Bree parada do lado de fora de uma das cabines.
— Senhor Knight.
— Cadê a Emma? — meu tom saiu mais ríspido do que eu pretendia.
— Está na cabine. — Bree me olhou confusa por alguns milésimos de segundo. Depois, um sorriso surgiu em seus lábios. — Sabe, senhor Knight, eu gostei de um vestido e estou doida para provar. Então… o senhor avisa a Emma, por favor, quando ela sair.
Assenti e, assim que Bree deu as costas, a voz de Emma chamou minha atenção.
— Bree… abre a porta e vem me ajudar com o zíper! — Abri a porta, mas ela não notou que não era a Aubrey. Jogou os cabelos compridos para frente. — Amiga, puxa até o final, por favor.
Coloquei a mão em suas costas e subi o zíper como ela pediu. Quando nossos olhos se encontraram através do espelho, eu disse:
— Pronto.
Emma levou alguns segundos para falar, como se estivesse processando a minha presença ali.
— Damien, o que você está fazendo aqui?
— Precisava falar com você.
— Agora? No provador feminino? — Ela se virou para mim e prendi a respiração ao vê-la.
Eu sempre achei Emma linda, mas com essa roupa era como se tudo nela estivesse sendo realçado. A beleza. O corpo. A força. Quando o choque passou, eu não controlei o que saiu da minha boca logo em seguida:
— Que roupa é essa?
Emma olhou para mim, depois para a roupa e voltou a me encarar.
— Uma roupa qualquer. Uma que decidi provar e comprar para sair mais tarde com a Bree.
— De jeito nenhum você vai sair assim — falei, entrando mais no provador.
— O que você acha? — ela rebateu.
— Não interessa o que eu acho, interessa o que você sente.
— Então… — ela começou, colocando a mão no meu peito me empurrando para trás — eu também tenho perguntas para você. — Olhei para ela confuso e ela continuou: — Por que quis me beijar naquele dia? Por que não me beijou? E por que fingiu que nada tinha acontecido depois?
Dei um passo para trás, recuando.
— É sobre isso, senhor Knight. Quando tiver as respostas para as minhas perguntas, talvez eu te conte sobre os meus sentimentos.
Batidas soaram na porta.
— Em, tudo bem? Já terminou?
Emma olhou para mim, os olhos brilhando de raiva e algo mais.
— Agora, peço gentilmente que saia para que eu possa me trocar.
Sem discutir, eu saí. Olhei para Bree, que me encarava como se tivesse visto um fantasma, passei pelas vendedoras curiosas e segui para fora da loja.
Caminhei pelo corredor do shopping sentido ao parque sem nem mesmo olhar para os lados. Emma estava certa: eu não posso cobrar dela que assuma seus sentimentos quando eu mesmo nem sei o que estou sentindo.
Encontrei Ozzie parado ao lado do carrossel enquanto observava as crianças. Assim que parei ao seu lado, sem desviar o olhar deles, ele me perguntou:
— E aí, conseguiu resolver?
— Não — respondi, irritado.
Ozzie riu, balançando a cabeça em negação, mas manteve os olhos nas crianças.
— E vai resolver quando? O tempo está passando. Emma é jovem, linda, divertida, uma mulher de fibra e corajosa — desta vez ele se virou para me encarar. — E alguém assim não fica sozinha muito tempo. Ela só precisa ser vista, e hoje à noite ela vai.
— O que você quer dizer com isso?
— O que quero dizer é que hoje vou levar a Em e a Bree na Velvet. E você sabe, né? Duas mulheres solteiras e lindas daquele jeito…
— Que merda é essa, Ozzie! — Chamei sua atenção.
— Não é merda, Dam, é vida! Aquela garota precisa respirar, precisa viver, e precisa que alguém a mostre como fazer. — O tom dele não era mais amigável. — Você tem duas opções aqui: ou você é o cara que mostra, ou deixa alguém mostrar.
O silêncio entre nós era quase palpável.
— Então me diz, Damien Knight. Qual você vai ser?

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