Capítulo 55 — Era eu!
Emma Anderson
— Emma… — Damien disse meu nome, confuso.
— Sinto muito, não quis te atrapalhar. Eu só… só ouvi que chegou e pensei…
Ele fez sinal para que eu esperasse um minuto, encerrou a ligação com John e depois veio até mim.
— Tudo bem? — perguntou, me puxando para ele. — Você está tremendo?
— Eu não… não estou me sentindo bem.
Damien segurou minha mão e me puxou até a cama; ele se sentou e me colocou em seu colo.
— O que está sentindo? Quer que eu ligue para a Esther? — Neguei com a cabeça, já sentindo as lágrimas arderem em meus olhos. Ele acariciou minha bochecha com o polegar. — Tem certeza, amor? Se preferir, te levo direto ao hospital, então.
— Tenho, é só um mal-estar. Eu vou ficar bem. — Damien me beijou, um beijo lento. Meu coração batia descompassado, não pelo beijo, mas pela conversa dele ao telefone. Quando nos separamos, perguntei: — Por que não respondeu às minhas mensagens?
— Meu dia foi corrido e surgiu uma viagem de última hora para fazer…
— Viagem? — Senti meu coração acelerar ainda mais. Ele ia atrás do tio Joe? Era isso? Ele não podia, não podia descobrir sobre aquela noite assim…
— Sim, é a negócios. Vou para São Francisco amanhã cedo, mas volto na quarta — avisou.
Mordi os lábios… ele não ia atrás do tio Joe. Joseph não era meu tio de verdade, mas ele conviveu com a minha família desde que eu era pequena, e meus pais me ensinaram a chamá-lo assim. E… era o carro dele que eu dirigia na noite do acidente.
— Emma?! — Damien me chamou. — Para onde você foi? — perguntou, passando a mão por meu rosto, me trazendo de volta dos meus pensamentos. — Tem certeza de que não quer que eu ligue para a Esther?
— Tenho — respondi, colocando a mão no rosto dele. — Damien, eu preciso te contar uma coisa.
Ele me olhou, confuso.
— Contar? O quê? — Respirei fundo.
— É algo… importante. É sobre os meus pais… — Vi os olhos dele escurecerem por um instante.
— Vou tomar um banho e aí conversamos, pode ser?
Assenti com um aceno, ele me deu um beijo e seguiu para o banheiro. Assim que a porta se fechou, comecei a andar de um lado para o outro, repassando na minha cabeça tudo o que eu precisava falar.
“Meu pai passou mal. Tio Joe ofereceu o carro. Eu o levei ao hospital. Mamãe e Ellie nos acompanharam. E então…”
Ouvi a porta do banheiro abrir. Ele saiu de lá vestindo uma calça de moletom e secando os cabelos com a toalha. Quando nossos olhos se encontraram, a minha coragem se foi. Damien não vai me perdoar. Eu sei que não.
— Pronto — ele disse, se aproximando. — Será que podemos conversar depois que eu comer alguma coisa? Eu nem almocei hoje, estou morrendo de fome.
— Deus, por que não avisou? Eu teria preparado alguma coisa enquanto estava no banho.
Damien jogou a toalha na poltrona e me puxou pela cintura.
— Podemos descer juntos. Eu como e conversamos.
Concordei, mas a verdade é que eu nem queria mais conversar. Saímos do quarto e descemos até a cozinha. O mandei sentar na banqueta enquanto eu preparava um sanduíche para ele; em alguns minutos, estava tudo pronto. Ele deu uma mordida no lanche, um gole no suco e depois virou para mim.
— Obrigado, querida. Estava precisando disso. — O encarei por alguns segundos. Não resisti e passei os dedos por seu rosto, e Damien acompanhou com os olhos cada movimento meu. — Quer conversar agora? — Ele deixou o sanduíche de lado e me puxou para ele.
— Termina de comer… — murmurei e ele assentiu.
— Amor… — repeti a palavra, fazendo-o se calar. — Será que você vai me amar? Será que você vai continuar me chamando assim depois… depois que… — As palavras morreram na minha garganta.
— Emma, do que é que está falando? O que tudo isso tem a ver com a gente?
Eu sorri entre as lágrimas, mas não era de alegria; era de tristeza.
— Você sabe, Damien… não finge que não. — O vi engolir seco. — Eu sei que você sabe, eu sei que sim…
— Eu não sei do que está falando. — O tom dele mudou. — Mas seja o que for, acho melhor não conversarmos agora. Não com você nesta situação.
Dei dois passos em direção a ele. Eu queria tocá-lo antes de ver tudo desmoronar, mas o olhar que ele me lançou me fez recuar. Aquilo doeu.
— Eu não liguei para a emergência — sussurrei voltando chamar sua atenção. — Nosso vizinho, um bom homem que nos conhecia há anos, ofereceu seu carro… — Um brilho de entendimento surgiu nos olhos de Damien. — Ele me ajudou a acomodar meu pai, minha irmã foi para a cadeirinha, minha mãe sentou ao seu lado. E eu… — senti um nó na minha garganta. — Eu sentei ao volante.
— Emma, para. Eu não quero ouvir isso. Não agora, não assim, não hoje. — A voz de Damien subiu um tom.
— Eu comecei a dirigir, eu estava tão desesperada. — as lágrimas escorriam copiosamente. — Meu pai respirava com dificuldade, minha mãe orava baixinho. — A dor foi me consumindo conforme eu falava.
— Emma Anderson… — meu nome veio como um aviso de seus lábios.
— O semáforo abriu... ou eu pensei que tivesse aberto, eu não sei ao certo. Eu estava tão… mas tão cansada naquele dia. — Olhei para ele. Damien tinha uma expressão dura, fria. — Eu sinto muito, Damien… Não sei como aconteceu, eu não vi acontecendo, ela bateu em mim, nossos carros se fundiram e eu…
— Não diz… — ele mandou, mas, eu não obedeci. Eu precisava tirar isso de mim.
Então eu disse:
— Era eu! Eu estava dirigindo o carro naquela noite.

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