Capítulo 66 — Foi por ela
Emma Anderson
Eu me neguei a falar com Damien. Não porque eu não quisesse, no fundo, eu queria… muito. Mas neguei porque, naquele momento, ele não merecia falar comigo. Se eu não mereci antes, ele não merecia agora. Não era birra, nem vingança. Era constatação.
As horas se passaram. Simon cumpriu o que prometeu e providenciou o que Ellie queria, mas minha irmã não parecia satisfeita. Ela teve mais duas crises de tosse que acabaram nos deixando em alerta; então, decidiu que não queria conversar com ninguém e se trancou no quarto com a Savannah. Eu estava na sala, alheia a tudo, quando Simon se sentou ao meu lado.
— Está tudo bem? — perguntou, colocando a mão em meu joelho para chamar minha atenção.
— Não… — respondi sincera. — Estou preocupada com a Ellie, pensando no Luca e… — não completei a frase, mas Simon sim.
— E nele. — Assenti com a cabeça.
— Então por que não o atendeu mais cedo?
— Não era hora — falei, sem hesitar. — Eu quis conversar antes, mas ele disse que não conseguia. E agora quem não consegue sou eu.
— Entendo. Ozzie me disse mais ou menos o motivo da briga, mas eu confesso que fiquei perdido.
Lembrei da minha conversa com Damien. Não foi bem uma briga, foi uma confissão que, no final, resultou nele me afastando.
— Eu contei para o Damien que, na noite em que meus pais morreram, era eu quem dirigia. — Simon me olhou confuso.
— Ele não sabia do acidente?
— Sabia — respondi, soltando o ar; eu estava tão cansada de tudo isso. — Mas ele não sabia que Ellie e eu estávamos no carro naquele dia, nem que era eu quem estava dirigindo… — parei por um segundo antes de completar: — E também não tinha ideia, ou tinha, só não quis admitir de que o acidente era o mesmo que matou a Clara.
Simon me encarou por alguns segundos sem dizer uma única palavra. Mas aquilo não me afetou; o silêncio entre nós foi até acolhedor porque, nos olhos dele, não havia julgamento, só compreensão.
— Sinto muito, eu não fazia ideia. Agora entendo um pouco a raiva do Dam — me disse sincero.
— Eu também o entendo, mas no fundo, depois da nossa convivência… tive a esperança de que ele agisse de outra forma.
— Eu te entendo também, Em. Mas a morte da Clara foi algo que mexeu muito com o Damien. Porque, na cabeça dele, ele não estava só perdendo a esposa e mãe do filho dele; ele perdeu a única pessoa que o aceitou do jeito que ele era. E convenhamos, Clara foi uma santa — ele disse com humor. — Porque Damien Knight não é um cara fácil.
Nós dois rimos.
— Eu que o diga — falei, forçando um sorriso. Voltamos a ficar em silêncio. Passou um tempo até que eu quebrei aquela quietude: — Contar a ele não foi como planejei, mas, no fundo, foi libertador.
Simon pegou minha mão e a segurou com carinho.
— E isso é o que importa. — falou levando a outra mão ao meu rosto e colocou alguns fios de cabelo atrás da minha orelha. — Posso te perguntar uma coisa? — Assenti com um aceno. — Sei que este não é o momento para isso, mas preciso saber. — O olhei com expectativa. — Por que me afastou?
Respirei fundo, tentando buscar as palavras certas, até que elas simplesmente foram saindo:
— Eu não queria ser um peso. Nunca quis. Nem para você, nem para ninguém.
— Peso, Emma? E onde você seria um peso para mim? — perguntou em um tom confuso.
— Você é quem você é, Simon. E eu… — dei de ombros. — Era só uma garota pobre demais, lascada demais e com expectativas de menos. O que eu tinha para te oferecer?
Ele levou a mão ao meu rosto e acariciou minha bochecha com o polegar. Um gesto simples, mas que eu via em seus olhos que era carregado de intenção. Eu devia afastá-lo… mas não afastei.
— Você tinha muito para me oferecer — respondeu com a voz baixa e rouca. — Tinha sua companhia, seu sorriso, sua coragem, sua determinação. Você é a pessoa mais forte que conheci e a única mulher que eu nunca esqueci.
— Simon… — minha voz saiu em um sussurro. Eu poderia ceder, só um pouco. Mas não era justo com ele, e nem comigo, pois meu coração ainda era do babaca conhecido como CEO de Gelo.


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